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O crítico de cinema continua indo ao teatro – The Square!

Luiz Carlos Merten

03 Junho 2018 | 10h19

Em plena lua-de-mel com Jean-Claude Bernardet – Antes do Fim, sua nova parceria com Cristiano Burlan (e Helena Ignez), é não apenas um dos melhores filmes do ano, virou também um dos filmes da minha vida -, fui ver ontem a peça que ele traduziu e dirigiu (com Rubens Rewald). Vocês provavelmemente vão me chamar de burguês de m… À Procura de Emprego, título, está no Sesc Santo Amaro. Fui de táxi, pela Marginal – e paguei caro -, mas a viagem não demorou um minuto a mais que os 20 programados nos aplicativos. O pesadelo veio depois – a volta. O lugar é mais deserto que o Saara. Tive de ir ao terminal Santo Amaro. Estava distante, em outro sentido, do elevador. Escadarias sem fim, corredores imensos. Dentro do terminal, terminei pegando o metrô. Fiz baldeação trem para Osasco, desci na estação Pinheiros. Caminhei feito um condenado, forçando a perna. Hoje pela manhã,o fisio, Marco, reforçou que sou meu pior inimigo. Cheguei com a perna esbodegada de Cannes. Quando ela começou a entrar na linha, a experiência forçada de ontem provocou de novo inchamento, aquecimento – e dor. Um aplicativo para chamar táxi teria me ajudado bastante, mas eu resisto ao tal de celular. Quando consegui chegar na estação Fradique, em Pinheiros, não tinha táxi, estava tudo fechado, não jantei. Tudo pela arte. Não conhecia o texto de Michael Vinaver, não conhecia o autor. À Procura de Emprego foi escrita em 1970, dois anos após o mítico maio. Um homem perde o emprego e passa por uma entrevista de recrutamento, para novo posto. A filha de 16 anos comunica-lhe que está grávida e acrescenta que ele sabe quem é o pai. O único negro que passou pela cama dela. Racismo? O texto é ferino contra essa sociedade que tenta cooptar os jovens, abraçando-os com o afeto de um polvo. Só há um jeito, camaradas. Baixar as calças e abrigá-la – a sociedade – a cagar até que exploda. No fôlder, Bernardet conta que há uns dez ano começou a investigar a dramaturgia francesa dos anos 1970/80. Descobriou Vinaver. Uma história realista desconstruída como se o autor tivesse recortado os diálogos em tiras e jogado tudo para o alto, recolhendo ao acaso os papeizinhos que caíam no chão. Bernardet fez a tradução e a ofereceu a Rubens Rewald. Desconstrução radical – não há delimitação de espaço dramático nem de tempo ou mesmo de ortografia – não há, joyceanamente, pontuação na fala dos personagens. Quatro atores (Eucir Souza, Magali Biff, Fernanda Viacava, Bianca Lopresti). Nenhuma indicação cenográfica. Apenas um quadrado, square, desenhado no chão. Square mesmo? Talvez um retângulo. Ecos de Ruben Ostlund e de Lars Von Trier, Dogville. Ali dentro do espaçlo exíguo, sem paredes, o quarteto se digladia num diálogo de loucos, ou de surdos – 30 trechos que uma voz vai enumerando. 1, 2, 10, 30. Interessante, mas… O problema é o mas. Os atores são bons, mas confesso que esse tipo de teatro conceitual me exauriu, sem me oferecer muito em troca. E eu ainda nem imaginava o que me esperava na difícil volta para casa. Tenho encontrado, sem falar com ele, Bernardet em algumas encenações de teatro mais alternativo. Acho estimulante esse diálogo entre teatro e cinema. Queixei-me da minha complicação com o transporte, mas a questão é pontual e tem a ver com o meu momento, a minha perna. O público dentro do trem, metrô era predominantemente jovem. Muita gente portava bandeiras com as cores do arco-íris, e eu fiquei sem saber se era da parada trans de ontem ou se já era a LGBT deste domingo. Não posso dizer que gostei de À Procura de Emprego, mas o jogo de incertezas, fragmentos e incompletitudes, obviamente, mexeu comigo.