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O cinema de Mizoguchi

Luiz Carlos Merten

05 de março de 2014 | 11h14

Recebi no outro dia as cópias de serviço de um novo lançamento da Versátil – O Cinema de Mizoguchi. A empresa que virou sinônimo de DVD de arte homenageia o grande diretor japonês Kenji Mizochi, morto em 1956, aos 58 anos. O pacote – três discos com cinco filmes, mais uma hora de extras, incluindo estudo do crítico Sérgio Alpendre – é o lançamento especial de março da Versátil. Contempla Contos da Lua Vaga, Oharu – Vida de Uma Cortesã, As Irmãs de Gion, Os Amantes Crucificados e Senhorita Oyu. São todos filmes que esculpiram o mito do diretor e voltam em cópias restauradas, mas para o meu gosto pessoal teria de haver um sexto filme ou eu substituiria A Senhorita Oyu por O Intendente Sansho, que é o ‘meu’ Mizoguchi (com Amantes Crucificados). Em As Irmãs de Gion e Oharu, ele aborda, em diferentes épocas, o tema que sempre lhe foi caro, a condição da mulher numa sociedade dominada pelos homens. As irmãs, que vivem no bairro das gueixas de Kyoto, nos anos 1930, têm atitudes opostas em relação aos homens, mas isso não muda nada o destino trágico de ambas. Oharu se passa no Japão feudal e descreve, com minucioso realismo, o processo de decadência da filha de um samurai que se liga a homem de casta inferior e é a sua ruína. Em ambos os filmes, e a despeito de suas diferenças – o primeiro é mais moderno, o seguindo inspira-se de um romance tradicional -, Mizoguchi conta suas histórias por meio de elaborados planos sequências. Só como ilustração, os críticos dividem a obra do diretor em duas grandes fases. Os filmes gendai-geki, anteriores à guerra, e os jidai-gekis, que se inscrevem na tradição, a partir de 1950. Contos da Lua Vaga conta uma história de fantasmas, mas sem recurso ao fantástico (como oposição ao realismo dos filmes anteriores). Os fantasmas misturam-se aos vivos sem nenhuma mudança de tom. Mizoguchi direciona para os vivos e os mortos o mesmo olhar límpido. O Intendente, por meio da ligação de Sansho com a amante, talvez seja o filme do diretor que mais mistura gêneros. Melodramático e picaresco, centra-se nas dificuldades de uma mãe e seus filhos (sempre as mulheres), numa fase miserável da era feudal. A condição social, o dinheiro contam muito no cinema de Mizoguchi. Não por acaso, muitas de suas heroínas são prostitutas. Oharu termina mendigando nas ruas. Mas, sejam elas p… ou uma imperatriz (Yang Kwei Fei, de 1955, seu antepenúltimo filme), as mulheres de Mizoguchi, mesmo quando se rebelam contra seu destino trágico, são sempre vítimas da sociedade (e dos homens). Meu outro preferido é Os Amantes Crucificados, que narra uma história de amor louco, culminando na morte. Por desafiarem os códigos, os amantes incendeiam o imaginário da multidão, que lamenta sua sorte, mas ambos partem sorridentes para o suplício. Revi Sansho e Amantes, mas não vi os outros. Não sei se Sérgio Alpendre fala ou se corre um texto na tela, mas estou certo de que ele deve abordar a fluidez da mise-em-scène de Mizoguchi, com aqueles planos sequências suntuosamente plásticos. Sua obra é quase toda uma celebração do P&B. Pouquíssimos de seus filmes são coloridos. O último, A Rua da Vergonha, de 1956 – ano da morte -, volta ao P&B para outra descrição, agora quase expressionista, da degradação das mulheres por meio da prostituição. Foi o último filme de Mizoguchi e até hoje é motivo de controvérsia entre seus admiradores – a harmonia e fluidez são quebradas por meio de rupturas bruscas. Mizoguchi não teve tempo de harmonizar sua despedida ou queria realmente esse cerimonial de morte? Não tinha nem 60 anos. Estava no auge. Um pouco mais de tempo e quantas obras-primas mais não teria legado?

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