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O choque Giordana, A Melhor Juventude (Secondo tempo)

Luiz Carlos Merten

24 de janeiro de 2020 | 12h52

PORTO ALEGRE – Que angústia corrói a alma de Matteo, o mais belo – em todos os sentidos – personagem de A Melhor Juventude? E que sentimento – culpa, vergonha – faz com que Giulia, que abandonou o marido e a filha para ingressar no terrorismo, usa sempre aqueles óculos escuros, que lhe secretam as emoções? Fui rever ontem a segunda parte do longa (3 + 3 horas) de Marco Tullio Giordana, e tive uma revelação. Uma epifania. No meu imaginário, o primeiro era melhor, mas, ontem, o segundo me deixou siderado. Fiquei pensando – por que vim a Porto Alegre para esse período tão curto? para rever o Giordana em casa, para um (re)encontro interior? Nós que nos amávamos tanto, e a revolução. A melhor juventude, e o sonho de um mundo mais humano, mais justo. Impossível para alguém da minha geração, nos 70 anos, amar o cinema, ser cinéfilo e não ter sido formado no italianismo pós neo-realista. Giordana cobre 40 anos de história da Itália, desde a solidariedade humana, e estudantil, na grande enchente de Florença, em 1966, quando era preciso salvar aquele patrimônio da humanidade, até o terror, a Operação Mani Pulite. Tudo a ver com fraude da Lsava-Jato, que como mostra Petra Costa em seu documentário indicado para o Oscar, Democracia em Vertigem, foi uma operação montada para caçar o PT e seus líderes. Jair Bolsonaro prometeu, na campanha, abrir a caixa preta do BNDES, que nada revelou de irregularidade. Encomendou, pagando uma fortuna, uma auditoria independente e internacional. Nada, de novo. Enquanto isso, pipocam denúncias contra o filho, o ministro da Economia e o esforço é de ocultamento. No filme, há um diálogo de Nicola (Luigi De Cascvio) com o amigo e cunhado Carlo, sobre como a corrupção é endêmica, e onde, na verdade, ela está. Havia conversado longamente com Giordana, quando veio dar sua master class em São Paulo no ano passado. Para ele, seu filme é atualíssimo – sobre o Brasil. Temos em comum a paixão pelo clássico de Luchino Visconti, Rocco e Seus Irmãos. Na noite de 31 de dezembro, Matteo volta para casa. A família está brindando. A mãe ouve o toque da campainha. ‘Deixem que eu atendo.’ Adriana Asti coloca-se na pele de Katina Paxinou, como Rosario Parondi. O retorno do filho pródigo – Matteo, no lugar de Simone. No Visconti, Renato Salvatoti vem dizer que matou Nadia/Annie Girardot. A tragédia agora é outra. Ao sobrinho, filho de Matteo, Nicola compara o pai dele a Aquiles, o favorito dos deuses. Belo e triste. Alessio Boni, que faz o papel, é perfeito. Mitos e homens. Lembrei-me de Ettore/Ettore, Heitor/Heitor em A Noite de São Lourenço, dos Irmãos Taviani. E de Florestano Vancini, Le Stagioni del Nostro Amori, de 1966. Enquanto Durou o Nosso Amor, quem me acompanha nessa viagem? Enrico Maria Salerno, como um Ulisses moderno, volta às origens e encontra Telêmaco. Wim Wenders também proporcionou esse reencontro mítico em Paris, Texas, quando pai e filho procuram a mulher e mãe. O cinema italiano me impregna, o sentimento mítico, também. O vulcão de Stromboli, Roberto Rossellini e Ingrid Bergman, il mare. Foi emocionante rever La Meglio Gioventù, Secondo Tempo. Vou ser atormentado pelo resto da vida pela lembrança de Matteo, e ao mesmo tempo redimido pela simplicidade de Nicola – “Tudo é belo.” E o filme ainda tem aquela trilha. Clássicos americanos, Bach, Mozart – e Astor Piazzolla. Oblivion. Acordei no meio da noite com a música na minha cabeça. Giordana! Não se pode amar sem amar-se. Não se pode perdoar sem perdoar-se. A Melhor Juventude teve um upgrade no meu imaginário. Entrou para o meu panteão.

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