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O choque de realidade de Uma Noite não É Nada

Luiz Carlos Merten

14 de agosto de 2019 | 09h31

Fui ontem pela manhã à cabine de Uma Noite não É Nada, de Alain Fresnot e, à tarde, voltei à Reserva Cultural para entrevistar Paulo Betti e o diretor. Toda a área da Paulista estava conflagrada pela manifestação dos estudantes. Quando consegui pegar um táxi, fiquei travado e o motorista buzinando – literalmente – no meu ouvido. ‘Fdp de meia-dúzia de petistas que não deixam a gente trabalhar’, etc e tal. Não eram meia-dúzia. Terminei brigando com o cara. Eu estava pagando, se ele quisesse eu o deixava sozinho para protestar à vontade. Adorei quando o troglodita disse que eu era petista, mas ele era democrata, ia me respeitar. Ha-hã. Não poderia ter gostado do filme da Eliza Capai, Espero Tua (re)Volta, e ser contra a manifestação de ontem, mesmo tendo perdido o horário para o filme que queria ver. Volto ao Fresnot. Os coleguinhas saíram batendo as tamancas. Odiaram. O ano é 1985, e o professor secundarista Paulo Betti, que leva uma vida de m…, fica louco de desejo por uma aluna. A garota é drogada, masturba-se na sala de aula. O tesão aumenta. A relação professor-aluna é totalmente inadequada para os padrões comportamentais de agora. Betti, o personagem, seria preso por assédio. A garota é soropositiva, ‘aidética’ como grita numa cena, e isso também é incorreto. Pensei naqueles filmes de Mauro Bolognini. Uma Noite não É Nada é sobre degradação ou redenção pelo amor? Nada é explicado, mas fica tudo claro. O vazio existencial do professor, a vertigem autodestrutiva da aluna, a resignação da mulher, Januária, que acompanha seu homem até o fim. Januária teria todo o direito de abandonar o ‘canalha’, mas ela tem compaixão e o diretor dedica o filme a Fany Fresnot, que não é outra senão sua mãe, que morreu há dois ou três anos. Sua mãe tinha essa humanidade, me explicou Fresnot. Adorei a atriz, Cláudia Mello, gostei demais da Fernanda Vianna, que faz a filha. Fiquei devastado quando mulher e filha choram por esse homem que não consegue mais sair da sua depressão. Todo o elenco é muito bom – Betti, Daniel Hendler, como o marido argentino, a estreante Luiza Braga. Curioso como Betti é reincidente nessas histórias de coroa às voltas com Lolitas, basta lembrar de Luna Caliente, de Jorge Furtado. Apesar do ambiente e do tom deprês, Uma Noite não É Nada é muito elaborado, visualmente. Preto e branco em cores, Pedro Farkas. Flashes de cor num PB opressivo. Não creio que o filme vá fazer grande sucesso de público nem de crítica, mas é bom, muito maduro como interpretação e mise-en-scène. E, depois, o Brasil estyá precisando desses choques de realidade. Hospitais superlotados, abandonados, macas nos corredores. O presidente talvez ache pornográfica, a exemplo de Bruna Surfistinha, a cena do ‘abuso’. Eu achei triste, corajosa. (Nossa)A triste condição humana. Acho que, desde Desmundo, não via um filme do Fresnot que ficasse comigo como esse.

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