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O cara que não tem direito de NÃO ser gay

Luiz Carlos Merten

24 de março de 2014 | 09h47

Havia me programado para ver ontem algum filme da nouvelle vague checa, mas fui ao jornal pela manhâ, depois almocei com Dib Carneiro e o filho dele, o Heitor, e tínhamos o teatro à noite, Abnegação. Encontramos Evaldo Mocarzel. A vida tem dessas coisas. A gente passa um tempão sem ver uma pessoa, e depois encontra todo dia. Sobre Abnegação, prefiro calar. Não vi nada que tenha me desagradado tanto nos últimos tempos. Parece a visão do poder e da política de um filme de Sérgio Bianchi. O horror, o horror – mas os atores até que estão bem, apesar da gratuidade das cenas de sexo e dos palavrões, tão orgânicos no Genet de Sérgio Ferrara. No CCSP, Centro Cultural São Paulo, dei-me conta de que está rolando o festival de filmes ecológicos, com a retrospectiva de Kaneto Shindo. Os Filhos de Hiroshima, A Ilha Nua, Onibaba. Sei que crio problemas para os outros, mas também crio para mim. Tenho sempre 1001 matérias para fazer, não tenho tempo de me ocupar com duas semanas de antecedência. Deixo para a véspera e aí, se ocorre de eu estar viajando, dançou. Foi o que deve ter acontecido. À tarde, terminei indo ver S.O.S. Mulheres ao Mar, de Chris D’Amato. Havia perdido a junket, as entrevistas, de novo por estar viajando. Terminei vendo o filme numa sessão normal, de público. Confesso que me diverti, mas gostei mais da parte comédia que da metade romance. Me bateu a curiosidade de ler o que andaram escrevendo sobre o filme. Chamou-me a atenção a crítica assinada por uma mulher, que acusa o filme de ser machista, irresponsável e quetal. Outro, aí foi um homem, virou paladino do feminismo e disse que essa visão da mulher que só se realiza através do homem é coisa dos anos 1950, no mínimo. Ué, mas no filme a Giovanna Antonelli, depois de ‘perder’ o marido, embarca num cruzeiro disposta a reconquistá-lo. Ela encontra outro (Reynaldo Gianecchini), de quem também se afasta e só quando sozinha é que consegue escrever seu livro. Quando reencontra o amor, é em outras bases, adepta do conceito do poetinha de que só é eterno enquanto dura (o amor). E chega a dizer que nunca, ninguém mais, vai obriga-la a abrir mão de sua liberdade, de seu desejo. Alô-ô! Chris D’Amato é mulher, e não é machista, gente. Não discuto o aspecto comédia televisiva, porque esse é o mais fácil de todos (para desqualificar qualquer filme), mas o preconceito… Adorei quando Giovanna briga com Gianecchini, dizendo que se abriu com ele achando que era uma biba amiga, e acrescenta – ‘Você não tem direito de não ser gay.’ É o máximo. As cãs caíram bem em Gianecchini, Giovanna é aquela exuberância, mas Fabíula Nascimento, sempre atrás de um homem – e não para casar -, e a doméstica têm as melhores cenas cômicas. E, para um filme que começa com o desejo de vingança, é legal que Fabíula, por mais solidária que seja com a amiga, seja também profissional e apresente, na hora do casting, a melhor solução, que favorece… O próprio cruzeiro, que Marisa Leão já usou em Meu Passado Me Condena, virou um sonho dourado, um desejo de consumo – não meu, que não me imagino confinado numa embarcação, em alto-mar. Meu ideal é estar num lugar, cidade, principalmente, do qual consiga sair rapidamente. Vou parar por aqui. Disse que me diverti com S.O.S. Se prosseguir mais um pouco, desmontando os argumentos ridículos dos que não gostam, arrisco-me a terminar gostando e defendendo para valer…

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