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O Capital

Luiz Carlos Merten

17 de outubro de 2013 | 10h23

A propósito de uma observação no post anterior – quando comecei a escrever sobre cinema, nos anos 1960, tinha muito mais certezas. Achava que sabia o que era o cinema. Hoje, tenho minhas dúvidas. Mas continuo visceralmente apaixonado (pelos filmes). Fui ver ontem O Capital, o novo Costa-Gavras. O título, obviamente, remete a Karl Marx, mas toma como base o livro escrito, sob pseudônimo, por um banqueiro aposentado. Não teria muita convicção ao dizer que gostei, mas gostei (muito) de ter visto. Costa-Gavras assimila um conceito de Oliver Stone. O dinheiro nunca dorme. O filme é uma fantasia sobre o sistema financeiro mundial. O herói, que não é bem um herói, é colocado na presidência de um banco europeu,. num mandato tampão, por gente que quer se aproveitar dele. Gad Elmaleh toma gosto pela coisa e resolve jogar o jogo. Costa-Gavras, velho esquerdista, não tem ilusões. Seu protagonista precisa neutralizar a oposição dentro da diretoria do banco. Sua mulher recomenda que ele siga preceitos do camarada Mao no livro vermelho. Genial. Numa refeição em família, o velho tio, revolucionário nos anos 1960, acusa o sobrinho de se haver vendido ao sistema financeiro – Gad demite, como querem os acionistas, mas exige um bônus por cada cabeça decepada. Gad enfrenta o tio e diz que a internacionalização da economia era aquilo com que sonhavam os revolucionários de antanho. Depois, quasndo9 o pai vem lhe pedir desculpas, ele diz a grande frase (fordiana) – que o tio, o derrotado da História, está certo. Estamos no domínio da ética. Vi O Capital com o coração na mão, tenso. Há uma top model que faz um jogo perigoso com Gad e tenta manipulá-lo. Ele vai derrubando as peças do tabuleiro, mas há essa mulher ambivalente. Cheguei a pensar que, como Dalila, ela derrubaria Sansão, mas Gad, numa jogada incorreta, vira o jogo e, explicitamente, a come.  É uma cena que deve revoltar as feministas, mas, com a do tio, foram aquelas que me fizeram achar que valeu a pena ver Le Capital. Fiquei curioso para ver as críticas e fui à internet. Encontrei um texto enorme de um grego,  Christos Kefalis, e Costa-Gavras é greco-francês. Chama-se, o texto, An anticapitalist masterpiece. Alguém que ainda fala em Lukács, tomando como base a representação dos arquétipos sociais dos realistas franceses do século 19 – aleluia! No filme, Gad se define como um Robin Hood que rouba dos pobres para dar aos ricos. Já ouço a canalha que defende a ‘modernidade’ financeira cair matando em Costa-Gavras. Ele sabe disso. Ironiza. No último plano, Gad vira-se para a câmera e diz… Vejam para descobrir o que ele diz. O mais curioso é que, nessas pesquisas na internet, abrem-se janelas. De repente, descobri uma muito interessante – as listas de top ten da revista Cahiers du Cinéma entre 1951 e 2009. Os preferidos da redação. Não sabia que Cahiers preferia Terra Bruta a O Homem Que Matou o Facínora, mas, de qualquer maneira, o plano-sequência do diálogo entre James Stewart e Richard Widmark, enquanto refrescam os pés – a câmera parada e eles falam, falam -, sempre foi outra representação do que é o cinema, para mim. Agora, que Rocco tenha sido ‘apenas’ o quarto melhor filme de 1961, isso, sim, foi uma surpresa.

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