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O capanga de Hitler

Luiz Carlos Merten

02 de julho de 2013 | 10h45

Gosto muito do livro com a entrevista que Alfred Hitchcock concedeu a François Truffaut e que saiu no Brasil como Hitchcock Truffaut. Mas, no mesmo formato, confesso que prefiro os de Michel Ciment com Elia Kazan e o de Jan Holliday com Douglas Sirk, e nenhum deles foi publicado por aqui, embora sejam ‘clássicos’. Voltei ao segundo por causa de O Capanga de Hitler, que saiu em DVD pela Cult. Hitler’s Madman. Originalmente, era Hitler’s Hangman, mas o título original foi trocado por causa de Hangmen also Die, Os Carrascos também Morrem, de Fritz Lang. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard define o filme como ‘extraordinário’ e lamenta que tenha sido eclipsado pela versão de Lang. Sirk ficou conhecido pela série de melodramas que fez na Universal, nos anos 1950, mas, em Hollywood, fez também thrillers e até um western, além desse filme de guerra, que foi sua primeira experiência nos EUA. Ele conta para Holliday que a produção, de tão ridícula, não era nem B. Era C ou D. Uma semana de filmagem, décors de sucata. Era pegar ou largar. Ele estava contratado na Columbia, mas Arthur Cohn, o tycoon do estúdio, não o deixava dirigir. Sirk topou, mesmo sabendo que, se não desse certo, poderia ser o fim para ele. Adotou um estilo documentário, que lhe parecia adequado. O curioso é que o filme foi comprado pela Metro – não era produção da Columbia –, mas Louis B. Mayer segurou o lançamento por mais de um ano, forçando Sirk a refilmar algumas cenas, para torná-lo mais ‘ficcional’. Sirk conta que, um dia, no estúdio, um homem se aproximou dele, disse que havia visto seu filme e lhe deu um conselho – ‘Você filma bem, ilumina muito bem. Resista, porque eles vão querer acabar com essas qualidades.’ Era King Vidor. Sirk havia conhecido Reinhard Heydrich, o carrasco de Praga, numa festa da UFA, em Berlim. Dinamarquês radicado na Alemanha, ele começou no teatro e chegou ao cinema, alcançando grande sucesso com La Habanera, com Zarah Leander. Goebbels queria fazer dele um dos queridinhos do regime, mas Sirk resistia. Na tal festa da UFA – o superestúdio alemão –, Sirk foi apresentado a Heydrich, e eles haviam cursado a mesma Academia Militar (era Naval). O diretor impressionou-se com a persona do favorito de Hitler, que tinha, segundo ele, o senso da teatralidade, e nisso se assemelhava ao ‘führer’. Sirk foi muito criticado por haver feito de John Carradine o ‘seu’ Heydrich, mas ele diz para Halliday que, retrospectivamente, era a única coisa da qual estava certo – Carradine ‘era’ Heydrich. O Capanga de Hitler foi lançado depois de Os Carracos também Morrem, mesmo tendo sido feito antes, e isso meio que selou uma reputação de obra de ‘segunda’, o que é injusto. Sirk conta como foi difícil fugir da Alemanha. Ele não tinha passaporte e teve de forjar uma situação. Fez um filme, com cenas filmadas no exterior, e deixou a Alemanha para escolher locações. Para não despertar suspeitas, voltou ao país. E aí tentou a masnobra de novo. Ele enviou a mulher para Roma, onde ‘reinava’ Mussolini, um aliado de Hitler. E também viajou para a Itália, em busca de locações. Não tinha dinheiro nem passaporte. Escondeu-se num hospital, como se estivesse mal. Um emissário foi enviado de Berlim com ordens para transladá-lo. Ele teve ajuda de uma freira. Sirk era protestante, havia sido educado para não mentir. A freirinha lhe disse que era bobagem e que iam improvisar. Ela colocou uma bolsa de água fervendo debaixo das cobertas, para que ele transpirasse muito. As mãos ficaram quentes e, quando Sirk apertou as mãos do emissário, ele se convenceu de que estava mal. Como num enredo de filme, Sirk fugiu do hospital por uma lateral e foi para a Suíça, de onde conseguiu emigrar para os EUA, onde já estavam Fritz Lang e outros exilados. Adorei a história – Sirk dizia que, se fosse possível, gostaria de ter contratado a freirinha salvadora como ‘gagwoman’. Ela tinha mais imaginação que muito diretor.

 

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