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O brilho eterno de Aldrich

Luiz Carlos Merten

10 Dezembro 2016 | 12h11

RIO – Meu último post havia sido um desastre. Entrei pela madrugada de quinta escrevendo sobre dois textos da edição de novembro da revista Sight & Sound, à qual já me referi. Na capa, David Oyelowo puxa uma reportagem sobre a negritude no cinema inglês, tradicionalmente não muito favorável ao tema. Já me referi brevemente a isso. O post – imenso – referia-se a outros dois artigos. Ao salvá-lo – Publicar! -, sumiu. Pqp! Desperate measures – Trevor Johnston escreve sobre I, Daniel Blake, o Ken Loach que venceu a segunda Palma de Ouro do diretor em Cannes, neste ano. ‘O labirinto kafkiano do sistema inglês de saúde e a desumanidade anônima de seus funcionários fornecem o quadro do poderoso vencedor da Palma, por Kean Loach, uma indignada dramatização sobre o alto custo da austeridade humana.’ Gosto muito de Loach, e desse Loach, e me encanta como nesse mundo cínico de avanço da direita ele insiste em se manter, e se proclamar, de esquerda. Ah, quer dizer que nessa imensa putaria que virou o Brasil só não conseguiram prender o rabo da Dilma? O Santo, o Justiça! Como é mesmo o mantra? a série O horror, o horror não termina nunca. O outro texto, por Brad Stevens, tem por título Not Fade Away – Robert Aldrich in the 1970s. O vento não levou – o grande Bob. Lembro-me de um texto de Sérgio Augusto no arquivo do Estadão, quando Aldrich morreu. Ele partia da sua tristeza pela morte do grande diretor para fazer a súmula do que considerava a degradação de toda uma geração de autores de Hollywood. Sérgio Augusto chorava o Aldrich das obras-primas de gênero nos anos 1950 e concluía que, apesar de certos brilharecos, ele nunca mais havia sido o mesmo. No meu livro Cinema – Entre a Realidade e o Artifício, eu talvez pudesse ter pegado Richard Brooks, que também amo, mas preferi Aldrich, para ir na contramão de Sérgio Augusto, e na mesma via de Brad Stevens. Nos anos 1960 e 70, Aldrich refez, melhores ainda, seus clássicos de gênero. Western, policial, gângster, guerra, bastidores de Hollywood. E Stevens pega o lançamento em Blu-ray de O Último Brilho do Crepúsculo para afirmar, o que creio – ‘Alguém que queira compreender onde estamos, e como aqui chegamos, política e esteticamente, deveria prestar ‘respectful attention’ a Último Brilho.” O brilho eterno de Aldrich. Filho e neto de banqueiros, poderia ter seguido a tradição da família, mas foi ser gauche em Hollywood. Ninguém foi mais antistablishment que ele, nem quando fazia filmes de gênero terror que pareciam um tanto descolados da realidade de seus demais trabalhos – O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, Com a Maldade na Alma/Hush Hush Sweet Charlotte. Os Doze Condenados é melhor que Morte sem Glória, A Vingança de Ulzana é melhor que O Último Bravo e Vera Cruz e O Resgate de Uma Vida, A Lenda de Lilah Clare e O Último Imperador são melhores que tudo, como investigações radicais sobre relações de poder na sociedade dos EUA, incluindo na estrutura do audiovisual. Se, no começo de sua carreira, Aldrich foi podado ao tentar colocar duas mulheres se beijando num filme, em Triângulo Feminino/The Killing of Sister George, que produziu, filmou as cenas sáficas mais intensas do cinema, sem o velcro chic da maioria das produções voyeurísticas que abordam o assunto para deleite de plateias masculinas. Não conheço cena mais bela do que a de Ulzana em que o guia Burt Lancaster, sentado ao pé do fogo com Jorge Rivera, que faz Kenitay, ouve dele a explicação sobre o porquê de o chefe índio que fugiu da reserva estar pilhando e matando, e deixando seu rastro de violência pelo Velho Oeste. O Último Brilho antecipa de 40 anos o Oliver Stone de Snowden, agora sou eu dizendo, não Brad Stevens. 40! Burt Lancaster é o general da Força Aérea que faz de tudo para expor documentos secretos que explicam os verdadeiros motivos da Guerra do Vietnã. Esse reconhecimento, mesmo que tardio, de Aldrich me serena o espírito. Os fdp não podem ganhar sempre. Esses podres que posam de homens de bem têm de ir mais é para o inferno, e o inferno é aqui.