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O Brasil que eu amo, em Fevereiros

Luiz Carlos Merten

28 de janeiro de 2019 | 14h06

Havia lido, em CartaCapital, o texto de Nirlando Beirão sobre as perseguições que os cultos afros voltaram a sofrer no Brasil. Tem gente que acha que está certa e faz de tudo para calar quem não pensa e age do seu jeito. É, aliás, o tema da nova montagem do Grupo GalpãO, Os Outros, que tanto me encantou. Nirlando, na Carta, de novo. O macaco está certo. Ele lembra, na edição desta semana, o caso do professor que foi julgado há quase 100 anos nos EUA – em 1925 – por lecionar a teoria evolucionista de Darwin numa escola de Dayton, no Tennessee, onde o conservadorismo havia conseguido estabelecer leis rígidas em defesa do criacionismo. Defrontaram-se os dois maiores advogados da época – Clarence Darrow e William Jennings Bryan. O texto brilhante de Nirlando recria, com inteligencia e humor, o clima feroz entre os antagonistas, que debatiam um tema ainda hoje relevante – na ‘América’ profunda que elegeu Donald Trump e no Brasil dos Bolsonaros. Pode-se ler a Bíblia, que foi reescrita ao longo do tempo e teve diferentes versões, ao pé da letra e fazer das alegorias daqueles textos um irrestrito código moral? No Brasil da ministra Damares, em que menino veste azul e menina, rosa, a roda do tempo retrocedeu 100 anos e o criacionismo está de volta, triunfante, para delícia de analistas finos, como Nirlando Beirão, que nos confrontam com os arautos do (neo)obscurantismo. Mesmo privados do prazer dessas leituras irônicas, creio que seríamos mais felizes num mundo mais tolerante, menos sectário. Nirlando cita até um filme – Festim Diabólico/The Rope, de Alfred Hitchcock -, para lembrar que Darrow foi o advogado da dupla Leopold e Loeb, dois riquinhos que cometeram um assassinato só para experimentar o prazer de, como mentes privilegiadas, matar impunemente. Mas Nirlando esquece-se de que o chamado ‘julgamento do macaco’ deu origem a um filme polêmico – O Vento Será Tua Herança/Inherit the Wind, de Stanley Kramer -, em que Spencer Tracy e Fredric March estão excepcionais como Darrow e Bryan. Havia começado esse texto meio ao Deus dará, sem saber aonde me levaria, mas tive de parar justamente aqui para ir à cabine de Fevereiros, o documentário de Márcio Debellian sobre Maria Bethânia. Tive o maior choque. Não sei sei se Fevereiros teria tido o mesmo impacto há um ano. Filmado entre 2015 e 16, quando a irmã de Caetano foi homenageada pela Mangueira e a escola foi campeã na Sapucaí, o documentário teve uma primeira montagem há três anos. O diretor parou para avaliar o material, fez novas entrevistas e terminou a montagem em 2017, apresentando seu filme no Festival do Rio daquele ano. Mas é como eu digo – o Brasil retrocedeu de tal maneira, está aí a nova articulação do texto, que a simples exposição do sincretismo cultural e religioso de Maria Bethânia, e da Bahia, confere um valor extraordinário (de resistência?) ao trabalho de Debellian. As falas de Caetano e do carnavalesco da Mangueira, sobre o Brasil mulato, negro, sincrético que a escola, fiel a suas origens (é povo!), gosta de colocar na rua, está na contramão do que prega a elite retrógrado/religiosa que agora nos governa. Emocionei-me profundamente com a forma como Bethânia descreve a doçura e generosidade de Mãe Menininha e que, embora embasada na crença dos orixás, me parece muito mais cristã, no que entendo que seja o cristianismo, do que o Cristo trepado na goiabeira da ministra celerada. Aquela mulher é ‘do mal’. Confiem no que eu digo – a semiologia não engana. Fevereiros estreia nesta quinta. Só espero que, se vir, você tenha o mesmo encantamento que eu.