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O Brasil, à sombra de Buñuel

Luiz Carlos Merten

30 de setembro de 2019 | 08h54

Muito sugestiva a capa de CartaCapital sobre o discurso do presidente na ONU, Alucinado. E também a entrevista da historiadora Armelle Enders sobre a eterna vocação colonial brasileira. A França, cujo presidente o nosso (nosso?) ataca, é o contrário da ideologia dos bolsonaristas. A França, referência de uma certa elite brasileira, pauta-se por uma tradição de cultura e sofisticação. Já o bolsonarismo é a ideologia da classe média americanizada e ressentida. Lembro-me das primeiras discussões, em fóruns do cinema brasileiro, quando surgiu aquele shopping na Barra com a reprodução da Estátua da Liberdade. Naquela época, minimizávamos o que aquilo sinalizava. Era ridículo, e ponto. Mas o que me leva ao post é o título estampado na capa de CC. Pode ser viagem de cinéfilo, mas Alucinado, para mim, evoca Luís Buñuel. El, de 1952, realizado no México e estrelado por um galã do período, Arturo de Córdova. Um estudo sobre o ciúme e o amor irracionais. Os sintomas de desequilíbrio começam, já na lua de mel, quando o marido, imaginando que o ex-noivo da mulher ocupa o quarto ao lado, enfia uma agulha de tricô no buraco da fechadura para que ele não possa espioná-los. O anticlericalismo de Buñuel. A vulgaridade da produção e, apesar de tudo, o brilho do grande cineasta. O que isso tem a ver com Bolsonaro? Nada, ou tudo, se considerarmos o seu (patético) “I love you, Trump.” Embora velho – 74 anos! – ainda espero ter tempo para, no futuro, rir de tudo isso.

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