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O Auto (carnavalesco) da Compadecida

Luiz Carlos Merten

09 de agosto de 2019 | 10h29

Pensava ver Auto da Compadecida no fim de semana, mas Gabriel Villela me enviou, por meio do meu editor, Ubiratan Brasil, que fez a capa do C2, um bilhete me chamando para a estreia. Fui – ontem. Nunca tive dúvida de que Gabriel faria, com o grupo mineiro Maria Cutia, uma grande releitura da peça de Ariano Suassuna que inspirou a microssérie e o filme de Guel Arraes em que Matheus Nachtergaele e Selton Mello estão geniais como João Grilo e Chicó. Cheguei a escrever no blog, por minha conta e risco – ou seja, sem haver falado com ele -, que, depois do seu Albert Camus (a fábula sobre o medo de Estado de Sítio), foi o julgamento no céu que levou Gabriel a Suassuna e ao Maria Cutia. Não digo nenhuma novidade ao lembrar que Suassuna integra o auto, ou a tradição do teatro medieval português, ao contexto histórico e social do Nordeste. João Grilo é um personagem de dois continentes, um (anti?) herói quixotesco e Chicó é seu Sancho Pança, a quem o primeiro arrasta na luta contra o patriarcado rural, a burguesia urbana, a polícia, o cangaceiro e até contra o Diabo. No programa, Gabriel fala no espetáculo, e na parceria com o Maria Cutia, como amálgamas da coleta de matéria mítica com os modos populares de expressões festivas de rua. E conta que desistiu de lutar contra o rótulo de diretor barroco, que lhe foi dado (com razão). O barroco é sua herança verdadeira, mas ouso dizer, de novo, que mais que o barroco mineiro – que começou a beber em Carmo do Rio Claro, onde nasceu, em Minas, no Brasil profundo -, seu barroco é elizabethano. Imaginai! É curioso que, leitor voraz de policiais e relatos fantásticos, tenha acabado de ler O Segredo de Shakespeare, de J.L. Carrell, pouco antes de ver o Auto de Gabriel. O duplo segredo, ou mistério, de Shakespeare, sua identidade – terá sido quem pensamos que foi? -, e a peça perdida, Cardênio, que ele adaptou, ou teria adaptado, de Dom Quixote de La Mancha. Estava imerso nesse ‘imaginai’ quando ingressei no do Auto. Não sei quanto ou se terá influenciado minha visão do espetáculo, mas amei. Um grande, imenso Gabriel. A verdadeira peça papo-reto sobre o Brasil atual não é o Macunaíma de Bia Lessa – ai preguiça -, mas o Auto. O Palhaço, representação do autor, Suassuna, diz que o Auto é uma história altamente moral e um apelo à misericórdia. João Grilo acrescenta – à misericórdia porque, se fôssemos julgados pela Justiça, nosso povo todinho seria condenado. e João Grilo, mais uma vez, quando o Diabo anuncia, no julgamento, que chegou a hora da verdade. ‘Então tô lascado, porque comigo era na mentira.’ Verdades e mentiras, tal é o retrato do Brasil por Gabriel Villela. Orson Welles, Falstaff, Shakespeare (sempre!). No palco, alguém saca a cartela que diz ‘Ele, não’, e o público vem abaixo no Sesc Pompeia. Em presença de Manuel, Jesus, evoca-se o Cristo na goiabeira, e de novo o público vem abaixo. Nada de nhe-nhe-nhem. O papo é retíssimo. Mais que um Auto nordestino (de cordel?), Gabriel e o Maria Cutia criaram um Auto carnavalesco. Pode ser que tenha sido difícil para o meu querido diretor lançar mão do microfone, recurso do qual sempre foi contra, mas o resultado é empolgante e a preparação vocal e a direção musical de Babaya (a segunda com Fernando Muzzi e Hugo da Silva) produzem a verdadeira rapsódia musical que o Brasil precisa para enfrentar esses tempos de treva. Como aceitar, permanecer calado quando ‘ele’ chama seu ídolo torturador de herói nacional? É covardia demais. Na apoteose, após o julgamento – João Grilo livre -, a banda arrasta o público para fora do teatro. Já imaginei esse espetáculo no Santiago a Mil, em janeiro, arrastando o público para a rua. Nem consegui falar com Gabriel depois da apresentação. Fiquei tão emocionado – uma ideia tão visceral de perda, do que nos foi, do que me está sendo (todo dia) roubado – que engasguei, e chorei. A arte contra a barbárie. Teatro do Brasil de dentro, para Gabriel, e seu espetáculo deslumbrante é prova disso, é uma ágora de serragem e terra. É agro, e é pop. E não tem pesticida!

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