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O Assunto de Família em Parasita

Luiz Carlos Merten

06 de outubro de 2019 | 10h37

Sempre existe a possibilidade – não descarto – de que não tenha entendido nada. Fui cheio de expectativa ao poste, louco para ver o Bong Joon-ho, Parasita, que foi o filme da coletiva da Mostra. Na mesa, Renata de Almeida, cercada por Laís Bodanzky, Alê Youssef, Danilo Santos de Miranda, etc. Apesar do clima de incerteza, será uma Mostra forte, ela anunciou. Sem filtro, toda liberdade à curadoria, Laís Bodanzky. A Mostra como trincheira da resistência cultural, Danilo. E Alê, reivindicando o espírito de Mário de Andrade – a Mostra é modernista, não bandeirante. Como símbolo do entendimento, o palestino Elia Suleiman e o israelense Amos Gitai receberão o Prêmio Humanidade e o Prêmio Leon Cakoff. São amigos, respeitam-se. Nada da cartilha Trump/Netanahyahu/Bolsonaro. Diálogo, entendimento, respeito ao outro. A quem? Outro? Filé mignon só para a família, a máxima bolsonarista. De volta à Mostra, o DNA brasileiro traduz-se no pôster, nos filmes de abertura e encerramento, na maciça participação nacional – 60 filmes sobre 300, 1/5. Gosto demais do sul-coreano Bong Joon-ho. O Hospedeiro (o primeiro Parasita?), (M)Other, Okja. Mas travei com Parasita, pelo qual ganhou a Palma de Ouro em Cannes, em maio. Uma família disfuncional, se Oxford tivesse um curso de extensão para fraudes a filha seria doutora em falsificações O filho é o primeiro a arranjar trabalho na casa de uns ricaços. Traz a irmã, o pai, a mãe. Vão ocupando espaços, tornando-se necessários. A casa tem uma parte secreta no subsolo. O curioso é que Parasita dialoga muito bem com o Hirokazu Kore-eda que havia vencido a Palma de Ouro do ano passado, Shoplifters/Assunto de Família. Outra família disfuncional, de trapaceiros. O Kore-eda foi o filme apresentado na coletiva de 2018. Senti-me de volta no tempo. E o mais estranho – gosto do Kore-eda, mas não de Assunto de Família. Gosto de Bong Joon-ho, mas não de Parasita. Alejandro González-Iñárritu outorgou a Palma para Bong Joon-ho, e ele, Iñárritu, afinal, ganhou o Oscar por Birdman. Make sense. Lucrécia Martel – Lucrécia! – premiou Todd Phillips, o Coringa. Stanley Kramer riria de tudo isso. Em 1963/64, ele já jogava a toalha, convencido de que deu a louca no mundo.

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