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O ano do bilhão

Luiz Carlos Merten

26 de dezembro de 2015 | 10h08

PORTO ALEGRE – Cá estou. Regressamos ontem de Montevidéu e eu passo o fim de semana em Porto, antes de voltar na segunda-feira para São Paulo. Vou fazer o que há anos não faço – um encontro de família, com todos os irmãos. Vamos hoje almoçar juntos. Lúcia já está em São Paulo, onde tira os pontos que resultaram da malfadada queda na noite do concurso de ‘cana’ com meus colegas João e Pedro. (Eu bebi e ela caiu, pai insensato.) Enviei ontem meu texto para a retrospectiva de fim de ano do Caderno 2. Fiz a retrospectiva internacional, preferia ter feito a brasileira. Uma, que detesto a divisão. E duas que metade da minha lista de dez mais é de brasileiros. Mas o que me aborrece de fato é que arrisco minha mão – a única! – de que Chatô e A Hora e a Vez de Augusto Matraga não estarão na lista de meu colega Luiz Zanin. De resto, posso arriscar que dois de meus outros favoritos – Oresteia e, principalmente, Campo de Jogo – estarão nos destaques dele, gostaria que com Branco Sai Preto Fica. Estava torcendo para que A Vizinhança do Tigre tivesse entrado (em cartaz), mas, até onde sei, o diretor Affonso Uchoa não levou adiante as tratativas com Ademar Oliveira e o filme fecha o ano na ‘prateleira’. O Tigre é the best no cinema das quebradas. No panorama mundial, foi o ano do ‘bilhão’. Nunca, em tão pouco tempo, tantos filmes ultrapassaram rapidamente a barreira do bilhão de dólares de receita em Hollywood. Jurassic World bateu Star Wars Episódio VII e o filme de Colin Trevorrow foi mesmo o blockbuster do ano. Um filme de aventuras à Howard Hawks, com Chris Pratt emulando John Wayne e Bryce-Dallas Howard vestindo os altos altos (que tira, durante a ação) das heroínas hawksianas. Não li nada, mas não duvido que, na relação custo/benefício, o belo e viril Chris tenha se convertido no astro mais rentável de Hollywood, com dois megassucessos, Jurassic World e Os Guardiões da Galáxia. Também fizeram mais de 1 bi – Velozes e Furiosos 7 e Minions. Com exceção dos malvadinhos de Bob – não gosto -, tenho de admitir que engrossei a estatística do bilhão de cada um desses filmes, vendo-os mais de uma vez (Jurassic, três ou quatro), além da tradicional sessão de imprensa. Mais de 40 anos depois de sua morte – em 1973 -, John Ford nunca esteve mais vivo, com as releituras que Clint Eastwood e Ron Howard propuseram de suas obras-primas. O primeiro refez Rastros de Ódio na guerra de American Sniper e o segundo, O Homem Que Matou o Facínora, na aventura marítima – de resto, walshiana – de No Coração do Mar. E houve a explosão latina. Não falo dos Leões de Ouro e Prata para Desde Allà e O Clã em Veneza, mas de Casadentro, Numa Escola de Havana e dos diálogos de Leonardo Padura em Retorno a Ítaca, nos cinemas do Brasil (e de São Paulo). No último, Laurent Cantet, que já colocara a França numa sala de aula (Entre os Muros da Escola), consegue o prodígio de concentrar toda Cuba num terraço de Havana. E, ah, sim, houve Jean-Luc Godard com seu novo brinquedinho, o 3-D. Adeus à Linguagem é, na verdade, um recomeço.

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