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O amor não é uma palavra vazia (sobre Gorbachev, no ETV)

Luiz Carlos Merten

07 de abril de 2019 | 10h59

Assisti ontem a dois documentários no É Tudo Verdade. O de Werner Herzog sobre Mikhail Gorbachev, basicamente uma conversa (entrevista?) do cineasta com o ex-dirigente soviético, e o de Ricardo Calil sobre o Cine Marrocos, que abrigou o célebre Festival Internacional de São Paulo, nos anos 1950. Não sei, sinceramente, se entendi o ponto do Calil. De um lado, ele encena, com integrantes da ocupação do prédio, preparados numa oficina, cenas dos clássicos que fizeram a história do festival (e do cinema). De outro, promove uma discussão sobre a política de criminalização das ocupações urbanas, pegando carona no noticiário da Globo (e o logo da Globo Filmes abre o longa), que mostrou, no SPTV, imagens de armas e drogas apreendidas no local. Gostei muito mais do primeiro foco, com personagens fascinantes, e acho que, por burrice ou o quê, me perdi no segundo. Reconheço a originalidade da proposta, e a reencenação dos filmes de Ingmar Bergman (Noites de Circo) e Billy Wilder (Sunset Boulevard/Crepúsculo dos Deuses) só poderia tocar o cinéfilo que sou, mas no tema das ocupações urbanas Eliana Caffé permanece imbatível com seu Hotel Cambridge. Quanto ao Herzog, é interessante como ele estabelece (e filma) o diálogo com Gorbachev. Herzog pergunta em inglês, Gorbachev usa ponto, que volta e meia ajeita no ouvido (e responde em russo). Entre a pergunta e a resposta há uma decalagem, e eu acho que se pode ver o filme todo a partir desse truncamento. O próprio Gorbachev foi truncado em seu projeto de poder, de modernizar e democratizar a antiga URSS, e o É Tudo Verdade mostra, através de outro documentário na seleção deste ano – sobre Putin -, como o poder imperial se manteve na Rússia e o sonho democrático de Mikhail foi para o espaço. A parte, digamos, ‘política’, é OK, mas o que faz a diferença no filme é o retrato íntimo – um pouco como as encenações afirmam a personalidade dos personagens de Cine Marrocos. Herzog pergunta a Gorbachev o que representou para ele a perda do poder. Mikhail responde, analítico. E aí o cineasta força o tom confessional e pergunta por Raisa, a mulher, a companheira que morreu de câncer. Gorbachev diz que, quando ela morreu, foi como se sua vida se tivesse despedaçado. Ele diz – ‘Arrancada (a vida) de mim.’ No velório, permanece abestalhado junto ao caixão e não reage nem quando chega o imperador Putin. E chora. A lágrima rola pela sua face. Nesse mundo da política, em que as pessoas secretam as emoções – ou fazem delas caricaturas provocativas, como os Trumps e Bolsonaros -, a fragilização de Gorbachev tem algo de pungente. O amor não é uma palavra vazia. Confesso que fiquei impressionado. Viajei.