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O amor de pai em Kursk (e na obra inteira de Thomas Vinterberg)

Luiz Carlos Merten

08 de janeiro de 2020 | 17h06

Assisti ontem à tarde a Kursk na cabine da Paris e confesso que gostei muito do filme de Thomas Vinterberg, gostei de ter visto. Foi uma experiência e tanto, e confesso que, como do meu casulo não sabia grande coisa do filme que ia ver, resolvi checar depois as reações e cheguei à conclusão de que, para o bem e para o mal, tenho uma forma de ver e sentir o cinema que difere da de todo o mundo, ainda bem. Encontrei pérolas do tipo ‘o filme é sobre o tempo mas o diretor não encontra seu tempo de narração’, ‘é profissional mas impessoal’, coisas assim. Confesso que fui de surpresa em surpresa, a começar pelo fato de que era um filme produzido por Luc Besson. Vamos por partes. Vinterberg assinou, como monge-cineasta, o manifesto Dogma orquestrado por Lars Von Trier em meados dos anos 1990. O Dogma estabelecia todas aquelas regras para desespetacularizar o cinema, se é que a palavra existe. Regras para um cinema mais realista – naturalista? – e menos comercial. Da teoria à prática, Vinterberg fez Festa de Família e Lars, Os Idiotas. O segundo já começou fraudando o próprio dogma. Os Idiotas tem cenas de sexo explícito para as quais Lars, para não constranger seu elenco, contratou profissionais do sexo explícito. O Dogma, nesse sentido, já surgiu natimorto, violando/subvertendo as próprias regras. De cara, Vinterberg colheu extraordinário sucesso com Festa de Família. O grupo reúne-se para o aniversário do patriarca, mas logo o clima festivo vira o caos com revelações de abuso praticado por papai. É curioso, mas tive oportunidade de entrevistar Vinterberg muitas vezes e assim fui descobrindo que é filho de uma autoridade em Shakespeare, e de certa forma muitos, senão todos os seus filmes, comportam referências ao bardo e a seus personagens. Vinterberg foi criado numa comunidade hippie, e evocou isso em A Comunidade. Tornou-se ele próprio pai e o tema do abuso voltou em A Caça, em que Mads Mikkelsen, como professor de jardim de infância, tem a vida destruída ao ser acusado de abuso por uma garotinha. É fácil ver na obra vinterbergiana o confronto entre o indivíduo e a coletividade, e isso obviamente ocorre em Kursk. Um acidente num submarino nuclear isola a tripulação no fundo do mar. A história é real e ocorreu em 2000, já com Vladimir Putin no poder. A grande frota russa, ex-soviética, está virando sucata e faltam recursos/tecnologia para o resgate. Um titular da Marinha real inglesa oferece socorro que o almirantado russo recusa – o submarino era o mais avançado de sua geração e há o temor de que o ‘Ocidente’ aproveite o episódio para se apossar de segredos militares. Max Von Sydow faz o almirante. Parece personagem de Martin Scorsese – um fóssil. Tem pronto seu discurso oficial, ‘Estamos fazendo tudo’, isto é, nada. E enquanto isso os caras estão morrendo lá embaixo, asfixiados. É óbvio que o confronto homem/instituição é forte, mas o verdadeiro tema de Vinterberg, aqui como em toda a sua obra, é a relação pai/filho. O filme abre-se com Matthias Schoenaerts controlando, no cronômetro, o exercício do filho. Quanto tempo o menino ficará sem respirar debaixo d’água? Segue-se uma brincadeira entre pai, mãe (Léa Seydoux) e filho. E em seguida a festa de um casamento, com algo de Michael Cimino (O Franco-Atirador). Celebração da amizade masculina – todos aqueles belos marinheiros viris -, da fertilidade feminina, e Léa é a própria carnalidade, representando uma grávida de busto exuberante. O relógio, com o cronômetro, é decisivo do começo ao fim. O filho, o ar que respiramos, também. Uma crítica que o filme tem recebido refere-se ao elenco internacional, com atores de diferentes nacionalidades representando russos, mas falando inglês. Um deles, Peter Simonischek, era o pai, o próprio Toni Erdmann, do longa de Maren Ade que tanto prestígio alcançou há dois ou três anos. Simonischek faz o comandante da frota russa do Norte e logo no começo, com a armada reunida em alto-mar para uma série de manobras, ele ouve de um subalterno que ainda é uma força considerável para impressionar e até intimidar os inimigos, mas pergunta – a questão é saber quem são os inimigos? Ao pesquisar, descobri que Putín ficou p…, perdoem o caco, com o filme. O filho e o relógio voltam no desfecho, mas não antes que Schoenaerts, no último momento, se pergunte que lembrança o garoto terá dele, depois que tudo aquilo tiver passado? A construção da memória passa muito pelo feminino, pela mulher, e como sempre Pernilla August, numa participação pequena mas visceral, é a própria humanidade. Não creio que Kursk seja uma obra-prima, nem que seja perfeito, mas o vi com muita emoção, gostando até, se é possível, mais do filme por seus defeitos que pelas qualidades. Talvez Vinterberg esteja tentando abarcar muita coisa. O Dogma ficou para trás – as considerações sobre a música no manifesto estão na contramão da partitura de Alexandre Desplat. De uma forma muito especial, lembrei-me de um Sam Fuller antigo – High and Hell Water, de 1953, lançado no Brasil como Tormenta sob os Mares, com Richard Widmark, Cameron Mitchell e, se não me engano, Gene Evans. Um filme inteiro dentro de um submarino também avariado, filmado em cinemascope, o que parece um contrassenso, mas do qual sempre gostei muito.

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