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O amigo Sam

Luiz Carlos Merten

20 de março de 2013 | 16h52

Fiz o que considero uma bela entrevista com Samantha Fuller, filha do grande Sam, que nasceu quando ele já passara dos 60 anos. A entrevista foi publicada no Caderno 2 de quarta-feira passada, mas a retrospectiva de Sam Fuller começa hoje no CCBB. Ou melhor – já começou. Ainda dá tempo de pegar dois filmes que, por sinal, estão entre meus preferidos – Mortos Que Caminham/Merrill’s Marauders, com Jeff Chandler, às 6, e Beijo Amargo, com Constance Towers, às 8. Samantha me deu uma visão tão bonita de seu pai. Quando ouço filhas falando com esse carinho espero, com todas as forças, merecer esse afeto de minha filha, Lúcia. Samantha e a mãe, a atriz Christa Lang, não dispõem dos direitos dos filmes, mas a filha guarda intocado o escritório dele, na casa em Los Angeles. A família viveu muito tempo em Paris. Samantha cuida dos papeis, os documentos, os roteiros inacabados e os que ele não filmou. No ano passado, quandoFuller faria 100 anos, ela chamou os amigos, os ‘devotos’ (Wim Wenders, Jim Jarmusch etc) e ele se sentaram na poltrona do diretor, fumaram o charuto de que ele gostava, tomaram um trago e contaram histórias – que elas filmou, para um documentário que não consegue finalizar, por falta de dinheiro. Achei particularmente bonito o que ela me disse – que não se cansa de rever os filmes do pai e cada vez mais tem a impressão de conhecê-lo, em profundidade, pelos filmes. Fuller, machão, entendia a mulher. Samantha identifica o pai, sem gênero nem distinção, nos homens e mulheres que ele criou em seus grandes filmes. Alguma preferência? A dela é a minha – Constance Towers, na abertura de choque de The Naked Kiss, que você poderá ver daqui a pouco. Grande Fuller. Samantha diz o mesmo que Jean Tulard no Dicionário de Cinema. Seu pai falava do que sabia – de jornalistas, gângsteres e soldados. Se comparava o cinema a um campo de batalha é porque viveu a guerra com intensidade e batalhou para fazer, como queria, os filmes que queria. Fuller tinha alma de historiador. Seus westerns e filmes de gângsteres contam a história da ‘América’ sem retoques. Cinema, para ele, não era profissão. Era necessidade visceral, a vida. Por isso amamos – ela, eu, espero que você também – Fuller.

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