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O adeus de Damiani

Luiz Carlos Merten

08 de março de 2013 | 11h09

Nem tive tempo de postar sobre o homem que salvou o Brasil e enfiou os pés pelas mãos, cuspindo no prato em que comeu. Afinal, o dito senhor foi uma criação da imprensa, não? Aguardo ansiosamente para ver se o destempero dele terá alguma repercussão. A semiologia não engana. Aquela boquinha torcida expressa alguma coisa, e não é boa. Mas agora quero falar de outra coisa. Não, não é de Oz, de Sam Raimi, que vi ontem, nem de A Parte dos Anjos, de Ken Loach, que estreia hoje. Meu colega e editor, Ubiratan Brasil, acaba de me informar que morreu Damiano Damiani – aos 90 anos, em Roma, de madrugada, de insuficiência respiratória. Damiano Damiani! Carlos Reichenbach o adorava, Ele pertencia a uma geração de diretores italianos que surgiu por volta de 1960. Começou apadrinhado por Pietro Germi no policial O Batom/Il Rossetto, investigou os jogos sexuais de adolescentes em L’Isola diArturo/A Ilha dos Amores Proibidos e excedeu no spaghetti western com Gringo (Quien Sabe?), com Gian-Maria Volontè e Lou Castel, que é um dos meus preferidos no gênero (senão ‘o’ preferido). Veio depois a fase com Franco Nero – Confissões de Um Comissário de Polícia ao Procurador da República e Só Resta Esquecer. Damiano Damiani teve sua importância no quadro de um cinema italiano fortemente politizado, embora seus thrillers, como os de Elio Petri e Costa-Gavras, fossem rotulados de reformistas pela crítica mais à esquerda. Contestavam o abuso do poder, não a estrutura burguesa do poder, portanto, não eram ‘revolucionários’. Como éramos ingênuos! Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, queixa-se de que a obra de Damiani é curiosamente desequilibrada. Eu até acho que gosto dele por isso. Não sei, sinceramente, se seus filmes de Máfia – O Dia da Coruja, com Claudia Cardinale, e Os Poderes da Máfia/Un Uomo da Ginnocchio, com Giuliano Gemma, conseguem se manter e também não ponho fé de que seu ensaio erótico, A Feiticeita do Amor, baseado em Carlos Fuentes e estrelado por Rossana Schiaffino, continue tesudo como parecia em 1966. Nos anos 1980, sua obra passou a circular menos, ele praticamente sumiu dos cinmemas brasileiros e também fez bobagens como um dos episódio da série de terror ‘Amityville’, mas confesso que gostei ou pelo menos achei interessante A Investigação, L’Inchiesta, com Harvey Keitel, em que o imperador Tiberius desembesta de querer saber o que houve com o corpo de Cristo. Não sobram muitos da geração de Damiani – na verdade, creio que após as morte dele sobra somente Francesco Rosi, que também já passou dos 90. De novo, como no outro dia, ao rever Esposamante, de Marco Vicario, foi toda a lembrança de um cinema italiano que me marcou que veio com a notícia da morte de Damiani.

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