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O adeus ao malandro

Luiz Carlos Merten

04 de outubro de 2014 | 17h22

RIO – Assisti agora à tarde Favela Gay e fiz a mediação do debate do filme de Rodrigo Felha no Pavilhão do Festival. Estava entrando na sala de debates quando fui informado da morte de Hugo Carvana. No fim de semana passado, ele foi homenageado pelo festival, que exibiu a versão restaurada de Vai Trabalhar, Vagabundo. Carvana já estava tão debilitado que não pôde prestigiasr a sessão. Morreu hoje, aos 77 anos, de complicações decorrentes de um câncer no pulmão. Na última vez que o vi, na junket de Casa da Mâe Joana 2, estava fraquinho, mas cheio de entusiasmo. Me falou sobre como era difícil e prazeroso fazer comédia, um gênero que depende muito do timing. A piada é como o fósforo, dizia Guimarães Rosa. Deflagrada, perde o uso. Mãe Joana 2 tinha seus momentos, mas na maior parte do tempo era um filme emperrado. Carvana, por causa da doença, havia perdido seu timing, mas não o charme. Continuava um grande contador de histórias. Para muita gente ele é o ator de TV, que estreou na novela Cuca Legal, nos anos 1970, e nos 80 foi o repórter Valdomiro, da série Plantão de Polícia. Só que quando fez Valdomiro Carvana já tinha quase 30 anos de carreira. Ele estreou nos 50, mas foi nos 60, nos primórdios do Cinema Novo, que começou a aparecer, em filmes que fizeram história, como Os Fuzis, A Falecida, A Grande Cidade, Vida Provisória, Terra em Transe e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, Jardim de Guerra, O Bravo Guerreiro, Macunaíma, O Anjo Nasceu, Os Herdeiros. Pode-se elaborar uma história do cinema brasileiro só a partir dos papeis de Carvana nos filmes de Ruy Guerra, Cacá Diegues, Maurício Gomes Leite, Glauber Rocha, Neville d’Almeida, Gustavo Dahl, Joaquim Pedro de Andrade. Em 1973, estreou na direção, exercitando-se na comédia, um gênero com o qual os autores do Cinema Novo não tinham muita afinidade. Carvana foi o cronista de uma era que, já naquele momento, desaparecia. Foi poeta da malandragem em filmes como o citado Vai Trabalhar, Vagabundo e Se Segura Malandro. Com Bar Esperança, aos malandros somaram-se intelectuais que tentavam resistir num País que durante muito tempo fora calado pela ditadura. Há uma semana, revendo Vagabundo, não fazia a menor ideia de que em uma semana estaria fazendo o necrológio de Carvana. Não é por causa de sua morte, mas tenho um  carinho todo especial por Vai Trabalhar, Vagabundo. Sempre achei a partida de bilhar entre Nelson Xavier e Paulo César Pereio um dos grandes momentos do cinema brasileiro. Babalu concede a revanche ao Russo, que derrotou no passado. O Russo foi parar no hospício, o prêmio de Babalu foi a mulher que agora o leva na rédea curta. Grande Carvana. Com ele, o que se vai é um tipo de irreverência, a malandragem, que hoje em dia talvez só sobreviva na música, com Diogo Nogueira.

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