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O adeus a Manoel

Luiz Carlos Merten

02 de abril de 2015 | 10h50

Cá estou na redação do Estado. Vim cedo para redigir, para o portal, textos sobre ciclos dedicados a Roberto Santos e Stanley Kubrick que começam hoje na cidade e fui atropelado pelas notícia da morte de Manoel de Oliveira. Morreu o ‘cher’ Manoel, como se referia a ele Gilles Jacob. Querido Manoel. Morreu aos 106 anos, nesta manhã, de complicações respiratórias, uma doença de velho e e mal que o acometia há tempos. Confesso que atualizei um texto que já tinha pronto e agora, aqui no blog, é que está me caindo a ficha. Uma tristeza profunda me abate, mas por que? Manoel teve uma bela vida. Foi esportista, galante, um grande artista. Fez filmes que fazem parte do meu imaginário – Non ou a Vã Glória de Mandar, Hora de Desespero,Vale Abraão, Vou para Casa, Um Filme Falado. São os meus preferidos dentro da sua obra singular.  Manoel de Oliveira era, inicialmente, um autor mais que bissexto. Um filme em 1942, Aniki-bobó, quando ele já tinha 34 anos, outro em 1963, Acto de Primavera, um terceiro em 1971, O Passado e o Presente. A obra só se torna regular a partir do fim dos anos 1980, quando Manoel já passara dos 70 e foi descoberto pela crítica francesa. A partir de 1990 e até 2012, conseguiu fazer um filme por ano, todos os anos. Tinha projetos para muitos anos mais, mas a crise portuguesa dificultara sua vida, como a de todo o mundo no país. Em São Paulo, seu neto, Ricardo Trepa, disse que temia pela inércia do avô. Quando filmava, ele se considerava imortal. O ficar parado desencadeava nele a melancolia, esse sentimento que devora a alma portuguesa e que percorre tantos de seus filmes. Penso em Oliveira e me vêm as imagens – sua Bovarinha manca, Michel Piccoli olhando para os cordões desamarrados do sapato – uma ideia que, na verdade, veio de Jean-Luc Godard, no episódio A Preguiça de Os Sete Pecados Capitais, com Eddie Constantine – e as mulheres à mesa, cada uma falando sua língua e todas se entendendo em Um Filme Falado. Grande Manoel. Acho que o que me abate, diante do seu gênio caído, é a consciência da nossa, da minha pequenez.

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