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O adeus a Carlos Manga, rei da paródia e da resistência no cinema brasileiro

Luiz Carlos Merten

17 Setembro 2015 | 21h33

Para ele não faz mais diferença, mas gostaria de estar na redação do Estado para enterrar Carlos Manga com todas as honras que merece. Quem fez isso foi Cristina Padiglione, que deve ter ressaltado a importância de Manga como diretor de TV, e ele foi importante. Eu ressaltaria o cineasta. Tive o privilégio, nos últimos anos, de estar presente em algumas das homenagens que Manga recebeu. Conversamos algumas vezes. No Rio, em Santos. Hélio Nascimento, grande crítico gaúcho, teve sensibilidade, em seu livro sobre o cinema brasileiro, de resgatar Moacir Fenelon como pré-neorrealista na chanchada Tudo Azul. Marlene cantava Lata D’Água na Cabeça e as imagens eram da pobreza no morro, anteriores ao Nelson Pereira dos Santos de Rio 40 Graus e Rio Zona Norte. Hélio não omite a era da Atlântida, a chanchada carnavalesca, que outro amigo merecedor de todo o meu respeito, José Carlos Avellar, também minimiza, chamando de rádio com imagem. As chanchadas embrulhavam os êxitos do rádio com alguma trama tola. O próprio Hélio vê na chanchada a expressão do nosso complexo de inferioridade de colonizados. Mas talvez não fosse apenas isso, ou não era nada disso. Na fábrica de sonhos da Atlântida, a Metro brasileira, reis com coroa de lata, como Carlos Manga, Watson Macedo e José Carlos Burle, instituíram uma estética da paródia e fizeram, cinema de resistência face ao poder econômico e ideológico de Hollywood. Cecil B. de Mille faturava com seu épico bíblico Sansão e Dalila, Manga respondia com Nem Sansão nem Dalila. Fred Zinnemann ganhava prestígio com o western antimacarthista Matar ou Morrer e Manga colocava Oscarito e Grande Otelo no centro dos tiroteios fajutos de Matar ou Correr. E, em O Homem do Sputnik, ele não apenas debochou da Guerra Fria – a disputa de norte-americanos e soviéticos na corrida espacial – como antecipou-se ao ciclo de espionagem à James Bond. Tudo isso além de colocar Norma Bengell fazendo beicinho, tipo Brigitte Bardot – ‘Mon chérrri’ -, para seduzir Oscar Lorenzo Jacinto de La Imaculada Concepción Tereza Diaz, vulgo Oscarito. Manga iniciou-se como diretor em 1953, com Dupla do Barulho, Oscarito e Grande Otelo. Com Oscarito, estabeleceu o recorde de 16 filmes. Só em 1959, o ano de O Homem do Sputnik, foram quatro. Em 1961, bandeou-se para a televisão, que engatinhava, mas voltou algumas vezes ao cinema. Em 1974, com o thriller O Marginal. Em 1975, seguindo a trilha de Assim Era Hollywood!, com Assim Era a Atlântida. Manga sempre defendeu a necessidade de se preservar a memória da Atlântida, e de Oscarito, a quem definia como ‘Carlitos brasileiro’. Talvez houvesse aí alguma injustiça, não com Oscarito, que era gênio, mas com Grande Otelo, seu imortal parceiro, tão grande que o próprio Orson Welles curvou-se perante ele. Acho ótimo que Carlos Manga, que morreu hoje, aos 87 anos – estou fazendo o post sem saber a causa da morte -, tenha sobrevivido para ver o olhar da crítica mudar, em relação a ele. Sérgio Augusto foi fundamental, com seu livro Esse Mundo É Um Pandeiro. Manga aceitava as homenagens – virou até estátua em tamanho natural, no saguão do Cine Odeon, em plena Cinelândia carioca. Mas da última vez que o vi, ele se locomovia com dificuldade e parecia cansado. Disse algo como ‘Eu não mudei para ser reconhecido, mudaram vocês (os críticos, entre os quais me incluo, por dever de ofício)’. Cada um terá seu momento preferido da obra paródica de Manga. Eu morro de rir de Norma Bengell e Oscarito em O Homem do Sputnik, cena tão maravilhosa quanto a recriação do balcão de Romeu e Julieta em Carnaval no Fogo, mas aí o diretor era outro, Watson Macedo. O importante, o que é forçoso reconhecer, é que esses homens fizeram história. Manga foi guerreiro, foi batalhador. Parte com glória.