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Nunca mais!

Luiz Carlos Merten

06 Dezembro 2015 | 23h47

Espero que Marina Person não esteja tão brava comigo – ia escrever ‘braba’, em gauchês -, a ponto de querer brigar, mas Paula Ferraz, que faz a assessoria do filme dela, Califórnia, me fez saber que Marina não gostou nem um pouco de um termo que usei no texto com a entrevista com ela no Caderno 2. Marina me disse duas ou três coisas para reforçar que o filme não é autobiográfico. Nunca quis ir para a Califórnia – sua meta seria Londres -, nunca teve um tio aidético. Ops! Foi o pivô da insatisfação da Marina. Embora o termo não esteja nas aspas com o que me disse, fica meio vago se ela teria dito. Marina jamais usaria uma palavra tão incorreta e preconceituosa. Comentei com meu amigo Dib Carneiro e ele me passou um pito. Dib adaptou o livro de Valéria Polizzi Depois Daquela Viagem para teatro e conviveu bastante com esse universo da aids. Explicou-me por que tem de ser soropositivo, e tudo bem. Assim como é incorreto e não uso mais homossexualismo – tem de ser homossexualidade -, prometo não usar mais aidético. Mas a correção me cansa. No Dia da Aids, na semana passada, ouvi muito que o Brasil, referência internacional no tratamento da síndrome, tem um percentual muito alto de jovens portadores do vírus. Soropositivo parece tão brando, tão distante. Pergunto-me se uma terapia de choque, tipo analista de Bagé, não ajudaria no processo de conscientização da garotada que brinca com (ignora?) o perigo. E a Marina lembra, na entrevista, como na origem da doença, e por conta da desinformação, a aids era associada à promiscuidade e isso piorava tudo, inclusive a vergonha de quem tinha (e dos familiares).Tem sido uma relativamente curta, em anos, mas longa trajetória desde que a aids irrompeu no imaginário das pessoas – e na dura realidade. Estava na Inter de Zero Hora, em Porto Alegre, e redigia as notícias com base em telegramas de agências internacionais (naquela época eram telegramas). Não se usava ‘soropositivo’ e a aids era referida como câncer ou praga ‘gay’, porque as vítimas preferenciais eram homossexuais. Aprendemos depois que atingia outros grupos – drogados, hemofílicos etc. Perdi amigos. Vi filmes bem-intencionados mas ruins sobre o assunto, vi um grande filme de um autor soropositivo que dramatizou a própria experiência. O francês Cyril Collard de Les Nuits Fauves, Noites Felinas, de 1992, já morreu, mas deixou o legado desse filme que ganhou o César mas nem isso o salvou de ser discriminado. Virou, a despeito das qualidades, um filme de gueto. Continuo com amigos soropositivos mas zerados, graças ao coquetel. Morro de saudade do Sérgio, do Edmar e nunca me conformei que o magnífico ator de Sylvio Back em Cruz e Sousa – O Poeta do Desterro, Kadu Carneiro, tenha se isolado para morrer, só sendo descoberto demasiado tarde. Peço desculpas a Marina e a todos os soropositivos, que tenham ou não, desenvolvido a doença. Aidéticos, nunca mais.