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Novíssimas propostas de linguagem

Luiz Carlos Merten

28 de julho de 2014 | 09h01

Tenho visto bons filmes no Festival Latino. Não tanto o de abertura, O Chaveiro, de Natalia Smirnoff, que me decepcionou, mas Matar a Um Homem, de Alejandro Fernández Almendras, e Hotel Nueva Isla, de Irene Gutiérrez (e Javier Labrador). O primeiro venceu o grande prêmio do júri em Sundance. O segundo tem o festival de Robert Redford entre os seus ‘sponsors’. Matar a Um Homem mostra como um pacato chefe de família é levado a seu limite e mata o sujeito que aterroriza sua família. Parece um tema de Sam Peckinpah, Sob o Domínio do Medo, mas o chileno Almendras fez outra coisa. A família implode e o próprio protagonista tem um gesto inusitado no desfecho. De alguma forma Matar a Um Hombre me lembrou El Chacal de Nahueltoro, de Miguel Littín, para mim, um dos mais belos filmes latino-americanos (o mais?). Hotel Nueva Isla é o mais minimalista dos filmes. Nada além de um velho e sua cachorra. Ele trabalha com demolição, num prédio em ruínas (o hotel do título). Pensava que os diretores, e a diretora, que está aqui, iam fazer uma metáfora de Cuba. O hotel em ruínas, que se desfaz.  O hotel (novo?) que talvez se reconstrua seriam a ilha dos irmãos Castro. A interpretação é possível, mas Irene e Labrador investem no mais rigoroso intimismo. O filme tem uma pegada meio O Transeunte, de Erik Rocha, mas ainda menos, muito menos. O velho tem, como se diz, um interesse amoroso. Ela tem uma filha, quer que ele se comprometa, que a assuma. Ele permanece solitário, con su perra. Chama-se Jorge, e no final o filme é dedicado a ele, Jorge de Los Reyes, que morreu no ano passado. Um ano de pesquisa, outro de filmagem, 70 enxutíssimos minutos. O público debandou da sala, a tenda na Praça Cívica. Restaram os que a diretora chamou de valientes. Ela disse uma coisa linda. Jorge não era ator. Ao ver o filme pronto,. disse-lhe que havia aceitado o papel – a experiência – para enfrentar seus medos. E acrescentou – ‘Agora posso morrer.’ Irene dirige o departamento de documentários da Escola Internacional de Cinema de San Antonio de Los Baños. Faz um cinema nas ‘bordas’. Hoje à noite, a partir das 19h30, ela participa com Cristiano Burlan, que também apresentou seu Hamlet no Festival Latino, do Cinema da Vela no Cinesesc. Vão discutir novas propostas de linguagem do cinema latino. Pelo que ambos fazem, vai ser muito interessante, mas será preciso optar entre o Cinema da Vela e a merecida homenagem a Sílvio Tendler.

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