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Nova onda

Luiz Carlos Merten

06 Setembro 2013 | 00h25

Não tenho conseguido dar conta de tanta coisa que ocorre comigo, ou ao meu redor. Já havia comentado que Rubens Ewald Filho me pediu que estabelecesse uma lista dos 50 melhores filmes brasileiros, para uma votação que ele organiza a pedido da HBO. Não sei quantas pessoas participaram da pesquisa, mas soube ontem que o meu número um – Selva Trágica, de Roberto Farias – não entrou na lista. Na verdade, ele não integrava nem a lista de 250 que o canal estabeleceu como matriz para os votantes. Isso não impediu que batesse um papo com o Rubens para um programa que vai ao ar no ano que vem. Falamos basicamente de policiais – Amei Um Bicheiro, Assalto ao Trem Pagador, Lúcio Flávio Passageiro da Agonia, Tropa de Elite 2 e Os Matadores.Beto Brant não autorizou a exibição de seu filme. Diz que não o representa. É a síndrome de Roberto Carlos, que também riscou E Que Tudo o Mais Vá pro Inferno de sua vida. Considerando que foi seu carro-chefe, e a base de sua fortuna, sempre me pergunto se os escrúpulos cristãos do ‘rei’ o levaram a atualizar o rendimento da canção e fazer alguma doação com tudo o que o valor representa. Claro que não, né? Beto parou de falar comigo, não me dá entrevistas. Deve ser porque acho que, ao contrário do que ele pensa,. Os Matadores segue sendo seu melhor filme, e aquela cena de Chico Diaz com Maria Padilha é antológica. Rubinho aproveitou para m,e pedir opiniões sucintas sobre outros dos 50 mais, nada programado, tudo muito espontâneo, adorei. Gravamos durante uma hora e meia e foi tudo muito legal, muito simpático. Hoje, participei de um debate sobre nouvelle vague no MIS, atividade que integrou a programação que o museu dedica ao movimento de renovação do cinema francês por volta de 1960. A nouvelle vague comemora 55 anos, ou 54 – há controvérsia – e o ciclo exibe alguns de seus clássicos. Não tive tempo de anunciar no blog, quem sabe quantos de vocês teriam ido? Quantos foram, porque a sala estava quase lotada e o ciclo, como descobri, está sendo um sucesso, com lotação plena em muitos filmes e imensa repercussão nas redes sociais. Me passou batido que, na sequência do debate, haveria a exibição de O Desprezo. É o ‘meu’ Jean-Luc Godard e aquele travelling inicial, em Cinecittà, não é só a coisa mais genial que Godard fez – é um dois grandes momentos do cinema. Não sei o que a programação promete até domingo, mas podem crer que as duas sessões diárias – às 18h30 e 20h30 – só vão mostrar coisas que vale (re)ver. Nouvelle vague! Se não foi o único, a nova onda francesa foi o primeiro movimento organizado da história do cinema a reclamar a idade como fator determinante. O componente geracional foi decisivo entre seus integrantes e, mesmo que houvesse uma disparidade entre Alain Resnais e Eric Rohmer e Jean-Luc Godard e François Truffaut – pelo menos dez anos mais jovens. A nova onda foi um movimento de movimento de jovens, uma reação à velharia que dominava a vida cultural e política das França na época. Cinema jovem contra cinema velho. Abaixo a tradição de qualidade, as regras fixas. Viajei no tempo lembrando meus verdes anos em Porto Alegre, as sessões no Ópera, em plena Rua da Praia, que era o cinema que exibia a produção francesa. Ah, jeunesse dorée. François Truffaut, arauto do cinema de autor, escreveu um artigo que fez o patrono da crítica gaúcha, P.F. Gastal, o Calvero, ranger os dentes. Para desancar o cinema de qualidade, os Claude Autant-Lara, Truffaut escolheu os autores, e um deles era Jacques Becker. Eis que, em 1955, o grande Jacques fez um Ali-Babá com ninguém menos que Fernandel – o representante máximo do cinéma de papa, ou de domingo, que a nova onda desprezava – e o que fez Truffaut? Viu o filme quatro ou cinco vezes para embasar sua exagese, segundo a qual o filme era o suprassumo da ‘autoria’. E Truffaut ainda aproveitou para provocar – disse que, se as pessoas tivessem feito como ele e visto os filmes tantas vezes, não haveria culto nenhum a John Huston, porque Relíquia Macabra nem O Tesouro de Sierra Madre aguentavam a revisão. As diatribes de Truffaut. Não creio que existam hoje muitos defensores de Ali-Babá e quantos de Relíquia Macabra? Uma legião… Passou da meia-noite, o ontem virou hoje.  Não elucidei o mistério da nouvelle vague, mas me lembro da emoção que foi ver alguns de seus clássicos no lançamento, há 50 anos, ou mais. Meninos, eu vi! É uma das coisas pelas quais se pode dizer que a idade vale.