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Nós que am(áv)amos a revolução, por Richard Brooks

Luiz Carlos Merten

04 de março de 2020 | 20h21

PARIS – Da geração de autores que se consagrou em Hollywood, nos anos 1950, não sou louco de não reconhecer a excepcionalidade de um Nicholas Ray, mas minha preferência sempre foi por Robert Aldrich, Richard Brooks, Anthony Mann. Por Brooks, tenho um carinho especial. Suas adaptações de Tennessee Williams e Joseph Conrad me fizeram sonhar, quando jovem. Os Profissionais, de 1965, foi um choque. Nós que amávamos a revolução. Ralph Bellamy, o gringo, contrata quatro profissionais – Lee Marvin, Burt Lancaster, Robert Ryan e Woody Strode – para resgatar sua mulher, Maria/Claudia Cardinale, sequestrada por um revolucionário mexicano, Jesus Raza/Jack Palance, que está exigindo resgate. A fronteira, o deserto, a revelação – Raza não é o monstro pintado pelo gringo e, se há um vilão nessa história, é ele, Bellamy. Palance, ator de grandes filmes da primeira fase de Aldrich, foi o memorável Wilson, antagonista de Shane/Alan Ladd, no western clássico de George Stevens, Os Brutos Também Amam. ‘O’ bad guy. Brooks viu nele outra coisa – um homem apaixonado, um revolucionário ardente. O filme tem ação, a fotografia genial de Conrasd Hall, a trilha de Maurice Jarre. Tem o elenco, e a palavra. Lembrei-me muito de José Fernando Peixoto de Azevedo, diretor das belíssimas montagens de Navalha na Carne Negra e Mãos Sujas. Brooks, sartriano? Na cena-chave, Lancaster e Palance discutem revolução e moralidade. Palance diz que Lancaster é um romântico que idealiza a revolução, mas ela não é uma santa, é uma puta. Se fosse uma história de amor, seria daquelas que exigem sacrifício e em geral terminam mal. Les mains sales. E tem a soldada Chiquita/Marie Gomez. Chiquita Si-Si, que não sabe dizer não e faz sexo com todo mundo. Brooks antecipou, por meio dela, a revolução sexual em marcha. Fazia décadas que não via Os Profissionais. Revi hoje o filme na abertura do 8.º Festival Internacional do Filme Restaurado, na Cinemateca Francesa. Toute la Mémoire du Monde. O evento apresenta um bloco de filmes – westerns da Columbia, que foram restaurados pelo estúdio. Versão linda, zero bala. Espero que Os Profissionais volte a circular, porque, além de tudo, de seus méritos excepcionais, seria uma forma de também resgatar Brooks. A sessão foi apresentada por um crítico jovem, um guri. Nicolas Métayer. Não disse nada que soasse como novo para mim, mas seu entusiasmo me contagiou. Ouvi-lo falar me lembrou o jovem que fui ao ver A Última Caçada, Gata em Teto de Zinco Quente, Lord Jim. Queria ver outro western restaurado da Columbia – Terra Bruta, do mestre John Ford -, mas terminei emendando com outro restauro, fora do festival. A distribuidora Carlotta está recolocando nas salas, na França, um Joseph Losey que nunca tinha visto – Time Without Pity, de 1957, sobre um pai ausente, porque alcoólico, que agora tenta evitar a execução do filho, condenado por assassinato. Uma corrida contra o tempo, no estilo distanciado – brechtiano – de Losey. Um precursor, há mais de 60 anos, dos temas da moralidade e da pena de morte do vencedor do Urso de Ouro deste ano, o iraniano There Is no Evil. Já escrevi aqui que Philip Kaufman está na cidade como convidado de honra do festival na Cinemateca. Amanhã, quinta – hoje, para mim, que estou quatro horas à frente -, ele apresenta dois de seus filmes, Henry e June e Os Eleitos. Comprei ingresso para os dois, mas se vir o da tarde, Henry e June, perderei o díptico de Fritz Lang na Filmoteca, O Tigre da Índia e O Sepulcro Indiano. E ainda nem falei do teatro. Consegui, mofando uma hora na file d’attente, assistir a um Tennessee Williams no Théâtre de L’Odéon – outro, porque foi lá, há uns dez anos, que vi Isabelle Huppert em Um Bonde Chamado Desejo. Agora, de novo, a glacial Isabelle – La Ménagerie de Veurre, Zoo de Cristal, mis-en-scène por um geniozinho local, Ivo Van Hove. E quem mais no elenco? Nahuel Pérez Biscayart, que vi em dois filmes em Berlim, incluindo um dos meus preferidos deste ano – Person Lessons. O carinha é muito bom, mas isso eu já sabia.

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