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Norma!

Luiz Carlos Merten

09 de outubro de 2013 | 10h21

RIO – Estava doido para postar sobre Sacro Gra, detonando o documentário de Gianfranco Rosi que venceu Veneza – deu a louca no júri de Bernardo Bertolucci? -, mas fui atropelado pelos fatos. Morreu Norma Bengell. Norma! Ela foi a maior vedete do Brasil e emulou Brigitte Bardot em O Homem do Sputnik, fazendo beicinho para chamar Oscarito de ‘chérrrri’ (com muitos Rs). Depois, foi aquela trajertória que todo mundo sabe – filmes com Anselmo Duarte (O Pagador de Promessas), Ruy Guerra (Os Cafajestes), Walter Hugo Khouri (Noite Vazia). Lançada numa carreira internacional, Norma Bengell filmou com Alberto Lattuada (O Mafioso), representou Marivaux em francês, no teatro em Paris, e voltou ao Brasil para ser musa de Glauber (em A Idade da Terra). Decidida a virar diretora – autora -, adaptou José de Alencar, O Guarani, e aí o castelo ruiu. Acusada de malversação de verbas, de superfaturamento e o escambau, Norma viveu o inferno. Isolou-se, ou tenho a impressão de que foi isolada, como Guilherme Fontes, que entrou naquela aventura de Chatô. Ambos atores, sem experiência de direção. Viraram símbolos de algo condenável. A doença agravou o estado de saúde e isolamento de Norma. Houve um movimento para ajudá-la, uma retrospectiva de seus filmes, não faz muito tempo. Creio que escrevi alguma coisa no blog. São belos filmes. A ousadia de Norma, protagonizando o nu frontal de Os Cafajestes. A cena continua forte, mas hoje não é isso que marca. Revi o filme em Tiradentes, há um par de anos, durante a homenagem a Ruy Guerra, e me surpreendeu como continua novo, moderno. Anselmo Duarte, quando conversava com ele para o livro da Coleção Aplauso, me contava histórias sobre Norma. Indiscrições, as cenas íntimas da grande estrela. Com todo respeito pelo grande Anselmo, como todo macho ele sabia ser grosseiro no relato de suas proezas sexuais. Não sei em que momento Norma, a mulher mais desejada do Brasil, sapateou. Talvez fosse uma reação aos homens que só viam nela o objeto de desejo. Ela nunca quis ser só o exterior. A fábula godardiana – se a gente tira o exterior, fica o interior. Se não vai ao interior não há nada. Norma me isolou quando falei mal de O Guarani. Ainda elogiei o final, as cenas da floresta, que me pareciam realmente bonitas e era o que dava para elogiar. Uma cena glauberiana. O restante é muito canhestro. Acho que ela se sentiu traída. Havia feito um Encontro Notável com Norma, quando a página ainda existia no Caderno 2. Nunca mais a procurei porque temia ser invasivo. A gente se arrepende do que não faz. Norma era tão linda, tão talentosa. Ruy Guerra e Walter Hugo Khouri souberam usar seus olhos de corça, de mulher acuada, um pouco triste. A garota usada pelos cafajestes, a puta sonhadora, que acredita que está tendo um romance com o homem que paga pela noite de sexo com ela – mas ele, Gabriele Tinti, com quem Norma se casou, também é um sonhador, um idealista, que vai na onda do amigo (e Mario Benvenutti, em Noite Vazia, é o contraponto da leonina Odete Lara). Norma falava com tanta ternura de Gabriele. Ele morreu cedo, ela viveu muito. Viverá eternamente na tela.

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