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Noite de emoções

Luiz Carlos Merten

26 de agosto de 2013 | 09h21

Pedi a meu amigo Dib Carneiro que limpasse minha caixa e ele descobriu por que não encontro mais comentários de vocês no blog, exceto os que já entram automaticamente. Tenho na lixeira, e também foram para lá no automático, 21 mil e poucos comentários que aguardam aprovação. Holy sheet! Entre esses descobri o de um leitor indignado porque escrevi que achei o Orlando Bloom, a quem entrevistei em Nova York, muito fresco. A correção política me cansa. Disse que o cara é fresco e até ‘ajutei’, como diriam os franceses, que é por ser inglês, mas só porque achei graça que um cara pai de filho, e dono de um belo cachorro – uma cadela, na verdade -, fosse tão efeminado nos gestos, nos antípodas do Legolas que cria em O Senhor dos Aneis e vai voltar em O Hobbit – A Desolação de Smaug. Se ele fosse gay nem teria notado, porque seria parte do ‘pacote’, entendem?, mas um ‘macho’ feminino sempre chama atenção, acho. Enfim, tentei salvar o comentário, juro!, para que o leitor não se sentisse censurado, mas quem disse que consegui? Tomou Doril, sumiu… Vamos começar o post de novo. Estava agora pela manhã no banheiro, na posição do pensador – sorry, Rodin -, tentando refletir sobre o que vi ontem à noite – daqui as pouco eu conto -, quando me caiu a ficha. Na entrevista com Catherine Frot, hoje no Caderno 2, cito a peça que a chef de Os Sabores do Palácio nos convidou para ver em Paris, no começo de junho. Nós – Elaine Guerini e eu. Fomos ao Théâtre de l’Atelier, sentamos com Arnaud Desplechin, que foi muito simpático. Tudo bacana, mas eu errei e creditei Oh! Que Beaux Jours a Ionesco, quando o autor é… Samuel Beckett! Tenho quase certeza de que errei também no texto sobre Rush – No Limite da Emoção, o belo filme de Ron Howard sobre a rivalidade entre James Hunt e Niki Lauda, ontem no Estado. Citei o Oscar do pai de Bryce Dallas e creio que escrevi Mentes Brilhantes, que é um filme de Jodie Foster, ao invés de Uma Mente Brilhante, como é o certo. Mil perdões, mas feitas as correções quero voltar à noite de ontem. Fui com o Dib ver Bibi (Ferreira) Canta e Conta Piaf. Teatro lotado – o Frei Caneca, que é grande – e gente se levantando a toda hora para aplaudir de pé a grande Bibi. Aquilo não é mais uma atriz, é… O quê? Um ícone, uma relíquia? E Bibi não perde o humor. Sempre tem aquele público de shows – Gostosa! Te amo! – e ela sapecou um ‘Obrigado, gente, mas não tenho mais idade para isso…’ Teria de pesquisar para ver com quantos anos Bibi está. Não deve ser 100. Noventa e alguma coisa. Corre, Manoel (de Oliveira), que ela te alcança. Lembrei-me do grande Manoel porque acho que Bibi, como ele, é movida à sua paixão pelo que faz. Tirem dele o cinema, dela o teatro, e não sei se durariam muito. Longa vida a ambos! Bibi deu uma canja antecipando alguma coisa do espetáculo que vai estrear em maio do ano que vem, no Frei Caneca. Bibi vai cantar… Sinatra. Poderosa! Isso posto tenho de acrescentar que achei Piaf, o show, no limite do brega e do sublime. Bibi cantando/recitando é genial, a orquestra, os violinos, o narrador – o meneur du jeu – são o que há de brega, criando não uma França cabareteira, mas edulcorada, para turista, como aqueles caras que tocam/cantam no metrô de Paris (e fazem parte do folclore local). Estava aflito à espera do que, para mim, seria o gran finale, e foi. Non, rien de rien, je ne regrette rien… Apoteose. Ali, sim, valeu aplaudir de pé. Jantamos, depois, Dib e eu, no próprio Frei Caneca (no New York Grill), e o baile seguiu com Muito Barulho por Nada, de Joss Whedon, de Os Vingadores (1 e 2, ainda a caminho). Estou até agora tentando decifrar o que vi.  O texto clássico de Shakespeare recitado com respeito a suas rimas, mas filmado, em esplendoroso preto e branco, na casa do diretor – é mole? – e numa abordagem contemporânea. Shakespeare, mestre da screwball comedy? Much Ado pertence à fase mais serena de Shakespeare, iniciada pelo ato final de O Mercador de Veneza e seguida pelas comédias românticas de uma alegria que Otto Maria Carpeaux chamava de ‘celestial’. Muito Barulho, As You Like It, Twelfth Night. Beatriz e Benedick nunca me pareceram mais belos nem divertidos com seus diálogos espirituosos e o amor que, finalmente, vence. Gays de carteirinha sempre tomam os sonetos como base para concluir que o bardo era gay, mas os eruditos shakespearianos acham a definição empobrecedora, e é. Shakespeare era pansexual. Imagino que a peça, escrita hoje, por um autor do nosso tempo, seria vítima da correção política. Muito barulho por nada? E o que é o ‘nada’, o bullyng sofrido pela pobre Hero?  Muito barulho por… tudo! Preciso rever para descobrir/confirmar se, além, do estranhamento, Muito Barulho vai para a minha lista de melhores do ano. O terceiro filme PB, após Tabu e Branca de Neve?

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