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No ventre da besta

Luiz Carlos Merten

01 de dezembro de 2015 | 11h33

Continuo comprando os números de Cahiers du Cinema que chegam atrasados à cidade, na banca do Conjunto Nacional. Via de regra irrito-me ao folhear a revista, mas tem sido um hábito dos últimos 30 anos que eu pretendo manter. (Um dia faço uma doação de todo esse material, quem sabe?) Confesso que ando mais interessado em publicações de língua inglesa, como Film Comment e Cinema Scope. Film Comment é publicada pela The Film Society of Lincoln Center, de Nova York. O número de novembro/dezembro estampa na capa O Filho de Saul. In the Belly of the Beast, No Ventre da Besta. Tenho de admitir que o filme do húngaro Laslo Nemes mexe muito comigo, mas não consigo dizer se gosto, pelo menos incondicionalmente. Film Comment traz textos pró e contra, e o segundo, de Stefan Grissemann, dá vazão a muitas de minhas dúvidas. O título já é uma pancada. Atrocity Exibihitionism. Exibicionismo Atroz – Por que O Filho de Saul é um oportunista e muito (highly) problemático ato de meta-exploração. Apenas um trecho – “Como um experimento artístico que recusa o sentimentalismo e a identificação com seus personagens, é a antítese do Holocausto de Steven Spielberg, mas, como A Lista de Schindler, fica distante do horror que tenta reproduzir, por mais que Nemes se esforce.” Film Comment faz uma crítica elogiosa de Casa Grande, de Fellipe Barbosa, e dá conta, com direito a foto de Kleber Mendonça Filho, de que ele está filmando Aquarius com Sonia Braga (já terminou). No filme, a eterna Dama do Lotação viaja no tempo e Kleber a chama de ‘imperatriz do universo’. Film Comment acrescenta que o diretor filmou 70 horas (70!). É muito material, mas confesso que aumenta a expectativa pelo filme, que poderá ficar pronto, quem sabe?, para tentar Cannes, em maio. A revista faz um estudo muito interessante sobre Charles Bronson, Tougher than Leather, Mais duro que couro, afirmando que ele foi um dos primeiros astros que se converteram em commodities internacionais, ao invés de continuar sendo só mais um ator famoso. ‘Havia estrelas mais brilhantes, mas Bronson vendia mais no box office.’ E a revista faz a pergunta que não quer calar – o que teria sido do cinema, do spaghetti western, se Bronson, que era a primeira escolha de Sergio Leone, tivesse feito o papel de Clint Eastwood em Por Um Punhado de Dólares? O cara de pedra (Il Brutto) recusou porque achou que era o pior roteiro que já lera. He-he. Há uma entrevista muito boa (melhor que a de Cahiers, fui comparar) com Miguel Gomes, sobre As Mil e Uma Noites, mas confesso que fiquei muito tocado com o texto sobre Tetsuro Hara. Atriz emblemática de Yasujiro Ozu, ela é lembrada (por Matias Piñeiro!) por seu papel em No Regrets for Our Youth, de Akira Kurosawa, de 1946. Na quinta-feira, fiz, para a edição de sexta do Caderno 2, o necrológio de Tetsuro. Ela morreu em setembro, mas quis que a notícia só fosse divulgada três meses depois. Houve essa coincidência e o texto de Piñeiro ressalta como a mulher contida, equilibrada de Ozu pode ser agitada, desequilibrada para Kurosawa. Isso somente ressalta a grande atriz de cinema que foi Tetsuro Hara, capaz de se ajustar às exigências diversas de dois grandes diretores.

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