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No Varilux, a arte que nos redime

Luiz Carlos Merten

11 Junho 2018 | 09h07

Devo ir hoje ao jornal e muito provavelmente vou encontrar Antônio Gonçalves Filho. Mas gostaria de topar, em alguma cabine, com Rubens Ewald Filho. A quem mais poderia perguntar sobre a Promessa ao Amanhecer de Jules Dassin, com Melina Mercouri? O filme não dispõe de boa reputação, como, de resto, quase toda a obra de Dassin com a atriz grega a quem ele transformou em Ilya, a prostituta do Pireu, que atende de segunda a sábado, Nunca aos Domingos. Nada me tira da cabeça que Billy Wilder fez Irma la Douce, com Shirley MacLaine, como reação a Nunca aos Domingos. (Irma não faz pausa, nem nos cigarros nem nos homens com os quais vai para a cama.) América, América. Essas p… libertárias não poderiam ser americanas. Uma grega, outra, francesa, tinham de ser europeias, poderiam ser latinas, orientais. Nunca americanas. Audrey Hepburn, na época, estava bancando a freira – Uma Cruz à Beira do Abismo, de Fred Zinnemann -, antes de bater perna na 5.ª Avenikda para namorar os diamantes da Tiffanys em Bonequinha de Luxo. Mas eu fui ver ontem à noite, no CineSala, quase cheio, Promessa ao Amanhecer, a versão de Éric Barbier, com Charlotte Gainsbourg. O amor de mãe. Nina desenha um futuro grandioso para o filho. Nenhuma possibilidade de não dar certo. Romain Gary virou escritor, ganhou prêmios e medalhas, casou-se com belas mulheres – Jean Seberg! -, mas o grande mistério vem por meio do letreiro, no final. Ele se matou aos 66 anos. Por que – um homem que tinha tudo? Terá sido a lacuna da mãe? Gostei de Promessa ao Amanhecer. Sorry – tenho de assumir meu preconceito. Anos atrás tivemos duas versões da vida de Yves Saint Laurent, com Pierre Niney e Gaspard Ulliel. Gostei mais das segunda, de Bertrand Bonello, e preferi Gaspard, um ator hetero, no papel. O preconceito – Pierre já era, ao natural, a própria feminilidade de Yves. Não precisou compor nada. Como preconceito é para superar, gostei muito de Pierre Niney em Franz, de François Ozon, e agora, como Romain Gary, em Promessa ao Amanhecer. Acho, inclusive, interessante como ele, tão delicado, tem pegada nas cenas de sexo com mulheres. (Acho comovente que, em Marvin, pressentindo que algo poderá lhe ocorrer, Charles Berling peça a Isabelle Huppert que olhe por seu gato, Finnegan Outfield. Ela reluta. Cuidar dos gatos do amigo? Só aquele,Berling insiste. Se precisar, é só miar, Isabelle diz a Marvin.) O Varilux vai até dia 20. É um festival de pré-estreias. Depois, todos esses filmes vão entrar em cartaz, mas recomendo que vejam já Marvin e Promessa ao Amanhecer. Nina, a mãe, quer fazer do filho um grande artista. Tenta a música, ele não quer. O garoto quer ser pintor. Jamais! Surtout pas peintre! Tudo, menos pintor. E mamãe brada se ele quer a miséria de Van Gogh, de Gauguin? É como se Nina tivesse visto o Gauguin de Vincent Cassel (no Taiti), que também está no Varilux. Uma vida de dedicação à arte, mas também de miséria. Todos esses filmes, Marvin, Promessa, Gauguin, são sobre a arte como superação. Tão bom ver bons filmes.