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No teto do mundo

Luiz Carlos Merten

12 de janeiro de 2019 | 00h59

SANTIAGO – Vim ao Chile diversas vezes, mas nunca sozinho. Esta viagem está sendo uma experiência e tanto. Fui hoje ao Sky Costanera, o edifício mais alto da América Latina, com 62 andares. A vista de Santiago lá do alto é acachapante. São 300 metros e a visão de 360 graus coloca a gente de cara para a Cordilheira. Só experimentei esse tipo de sensação em Dubai, naquele prédio que Tom Cruise escala em Missão Impossível. Fiquei ali, olhando Santiago de cima e refletindo. É uma cidade com muito verde, prédios moderníssimos, mas esse ângulo do ‘condor’ é enganoso. Não se vê a miséria que ontem me chocou, e desconcertou. Bolsonaro e seus Chicago boys devem considerar a experiência chilena o máximo, mas eu tenho minhas dúvidas. O Sky Costanera, de qualquer maneira, é impressionante. Gostaria de ter compartilhado a experiência, e até compartilhei, trocando impressões, em várias línguas, com pessoas que encontrei lá em cima. O edifício liga-se a um shopping – a um mall, como dizem aqui – e, ao descer, encontrei uma livraria, na qual comprei alguns livros de cinema. Dois – A História Freak del Cine, de Joaquín Barañao, em dois volumes. O primeiro mapeia a história do cinema desde as origens até Kubrick, através de 203 curiosidades. O segundo, de Lawrence da Arábia até a Netflix, através de 298 curiosidades. Nunca sei até que ponto essas histórias são verdadeiras, ou se quem conta um conto agrega um ponto. Li, en passant, o primeiro volume, enquanto jantava num restaurante perto do hotel, em Providência. O que ainda me faltava saber sobre O Mágico de Oz e …E o Vento Levou? David Selznick recusou Katharine Hepburn, mesmo sabendo que ela tinha o temperamento para ser Scarlet O’Hara, porque achava que lhe faltava sex-appeal e ele não conseguia imaginar Rhett Butler correndo mais de dez anos atrás daquela magrela. Mas, mesmo depois de escolher Vivien Leigh, ele tinha dúvidas quanto ao seu apelo erótico e desafiou o código de censura ao fazer com que Vivien usasse um figurino que realçava os seios que ela não tinha – e isso enquanto Judy Garland, em outro estúdio da Metro, tinha de amassar seu volumoso busto para ser a garota Dorothy de The Magician of Oz. Sempre ouvi as mesmas justificativas para Clark Gable ter exigido a substituição de George Cukor – era um diretor de mulheres -, mas Barañao sugere uma outra história. Cukor era gay e Gable, o rei de Hollywood, havia sido michê e Cukor o conhecia dessa época, o que inviabilizava que o aceitasse como paradigma de virilidade. Nunca pensei por esse lado, mas será? Não creio muito, pois não lembro de nenhuma referência do tipo nas biografias que li do grande Cukor. Construo histórias e ainda não falei do meu choque do dia. Consegui, depois de muito esforço – estava esgotado, mas fiquei rondando o Teatro da Universidade do Chile, na Praça Baquedano, e no último momento alguém não apareceu -, havia um lugar sobrando e pude ver La Canción de la Tierra. João Luiz Sampaio, meu colega crítico de erudita no Estado, com certeza conhece a criação de Gustav Mahler, mas será que já a viu montada? O programa do Santiago a Mil, diz que A Canção, penúltima criação de Mahler, desafia a classificação. Não é um ciclo de canções nem uma sinfonia nem um drama operático, mas uma peça musical inspirada em relatos ancestrais chineses e que navega pelo caos, a confusão, a contemplação, a beleza e a morte paras compor o que é, essencialmente, um ciclo da vida. Executada por 80 músicos da Orquestra Sinfônica Nacional do Chile, a obra expande sua dimensão musical por meio da linguagem multidisciplinar da companhia TeatroCinema, que nem sabia que existia, mas é fera. Dois intérpretes líricos, um barítono e uma mezzosoprano, cantam e, na verdade, suas presenças cênicas interagem com projeções repletas de simbolismos, que fazem do espetáculo uma experiência única. Nada me preparava para o que vi, ouvi. Sinto-me privilegiado por haver participado dessa explosão criativa. Já é madrugada no Brasil – como o Chile não tem horário de verão, estou uma hora atrás – e eu preciso dormir. Pela manhã, vou a Valparaíso, à casa de Pablo Neruda, mas antes passo pelo santuário da Virgem da Concepción, padroeira do Chile. Foi o que me trouxe aqui. Depois, eu conto.