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No teatro (1), Decepções

Luiz Carlos Merten

05 de abril de 2015 | 22h14

Tenho visto bastante coisa de teatro nos últimos tempos. Infelizmente, não tenho gostado do que ando vendo. Ou melhor, não andava gostando até ontem – amei Dias de Vinho e Rosas, que vi no Espaço Viga com meu amigo Dib Carneiro. Vamos por partes. Tenho o maior respeito e admiração por Monique Gardenberg, mas, por honestidade comigo mesmo, tenho de admitir que Hora Amarela é o que vi de menos interessante dela, no teatro e no cinema. Mesmo em Hora Amarela, Monique cria uma solução muito rica de mise-en-scène. Transforma o palco numa tela horizontal de cinema, ilumina como sempre muito bem. Até a interpretação, embora irregular, funciona. Só o que não me convenceu foi o texto ambicioso de Adam Rapp, que propõe um cenário de destruição e guerra. Foi a segunda montagem de Monique com texto do dramaturgo, depois de Inverno da Luz Vermelha, e para mim foi uma decepção – sorry. Também não gostei muito de Consertando Frank, montagem de Marco Antônio Pâmio para o texto de Ken Hanes. Gostei dos atores, mas fiquei desconcertado com a peça, que se constrói em torno ao polêmico tema da cura gay, mas cujo tema, de verdade, é a manipulação. Frank é um repórter gay manipulado por dois terapeutas, e um deles é o cara com quem vive. Há esse momento em que o repórter, fingindo ser um paciente gay que quer ser ‘curado’, descreve o tratamento à base de choques. tipo o tratamento Ludovico a que Malcolm McDowell/Alex era submetido em A Laranja Mecânica. Imagem de homem, choque, dor. Imagem de mulher, prazer. O comentário de Frank é que mulher, nem morta, e ele não precisa do choque para associar homem e dor. Me pareceu que fica claro uma preferência passiva do personagem. Frank submete-se com gosto ao papel de manipulado e só no final fica claro que o terapeuta tipo Bolsonero, o que propõe a cura, é mais esperto que o namorado, que usa o repórter para tentar denunciá-lo. O dr. Bolsonero usa o tratamento de Frank para atingir Jonathan, o nome do outro, e até fazer com que ele perca sua licença. Pobre Frank, o que vou dizer deve ser incorreto, mas é a bicha burra, que no final fica choramingando, porque perdeu tudo. Corrigindo – a peça não é sobre manipulação. É sobre o que se perde, ao se deixar manipular. Não consegui entrar no clima, não gostei, mas a plateia, pelo visto, se divertiu mais que eu. Em compensação, Dias de Vinho e Rosas… Aguardem o próximo post.

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