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No teatro (2), Êxtase

Luiz Carlos Merten

05 de abril de 2015 | 22h32

No começo dos anos 1960, entre Bonequinha de Luxo/Breakfast at Tiffany’s e A Pantera Cor de Rosa, o primeiro da série, Blake Edwards, um príncipe da comédia, realizou de forma consecutiva dois dramas. Roteirista, principalmente para Richard Quine, diretor de TV (as séries Mr. Lucky e Peter Gunn), Edwards ingressou na trilha de Alfred Hitchcock, que incorporara técnicas de televisão em Psicose, e fez Escravas do Medo/Experiment in Terror, e Dias de Vinho e Rosas, ambos com Lee Remick. O primeiro, como diz o título é, um experimento de terror, sobre duas irmãs (Lee e Steganie Powers) caçadas por serial killer. Glenn Ford é o agente do FBI que resolve a parada, mas, até lá, o jogo é duro (filmado da forma mais realista possível). Até onde me lembro, é um dos filmes mais tensos que vi, com uma trilha genial de Henry Mancini. Days of Wine ands Roses, que foi lançado no Brasil como Vício Maldito, também tem trilha de Mancini e a canção-tema teve uma famosa versão na voz de Tony Bennett. O filme baseia-se numa teleplay de JP Miller (que foi adaptada para o teatro por Owen MacCafferty). No filme, Jack Lemmon e Lee Remick casam-se, ele bebe por necessidade profissional , torna-se alcoólatra, arrasta a mulher. Nem que eu viva mais 69 anos vou esquecer o final, que não conto porque pode tirar o impacto de quem for ver a peça. No palco, Carolina Mânica e Daniel Alvim fazem o casal, Donald e Mona. De cara, e talvez por puro preconceito, achei que ela não ia dar conta da personagem. Muito jovem… Mas Carolina dá conta, sim, e bem. Daniel é poderoso, mas tive a impressão, e não sei se ele vai achar que isso é elogio, de que interpreta… Fábio Assunção, que dirige a montagem. Egberto Gismonti fez a trilha, que homenageia Henry Mancini, a iluminação é linda, mas o que me deixou siderado foi mesmo a direção do Fábio. Totalmente conceitual. Com pouquíssimos recursos cênicos – o figurino e alguns objetos –, ele delimita o espaço e cria ambientes que se tornam vivos na imaginação da gente graças ao elenco. Nem se aquele palco estivesse lotado de cenografia a impressão seria mais viva. Na saída, conversei com os atores. A peça exige deles tanto física quanto emocionalmente. Carolina me disse que passa a semana comendo porque perde pelo menos um quilo por fim de semana, tão grande é seu desgate físico correndo em cena. Não resisto a acrescentar – Fábio faz com que seus atores se vistam e desvistam no palco. Carolina fica de calcinha e sutiã. Tem um dos corpos mais belos que já vi. Poderosa! E poderoso, o Fábio, também. Não tinha por que duvidar que ele pudesse dirigir bem, mas me surpreendi. É melhor do que poderia esperar. Ele está preocupado. Passou o ano passado inteiro captando. Tem dinheiro para a apresentação em São Paulo, até o fim de maio, apenas. O projeto já rola desde 2013. É muito empenho para tão pouco tempo de exposição. Espero contribuir, com o post, para que mais gente vá ver. E, quem sabe, para que Dias de Vinho e Rosas tenha uma sobrevida. Não vou sugerir a ninguém que pirateie, mas o filme é muito bonito. Até onde me lembro, foi indicado para os Oscars de canção e direção de arte em preto e branco– ou seja, tudo o que Fábio Assunção e seu elenco nos levam a imaginar, era rigorosamente construído como imagem, na tela. Na época, a crítica dizia que Dias de Vinho e Rosas estava no plano de Farrapo Humano, de Billy Wilder, vencedor dos principais Oscars de 1945 (filme, diretor, roteiro, ator – Ray Milland). Dias de Vinho e Rosas deve estar disponível na rede, mas a  Versátil, ou a Cult, poderiam resgatá-lo (e também Escravas do Medo).

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