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No Filte

Luiz Carlos Merten

02 de setembro de 2012 | 11h03

SALVADOR – Aqui estou, desde sexta à tarde. Cheguei e já tinha de enviar correndo uns textos para o Caderno 2. À noite, fomos à casa de Djalma Thürler, que dirige a nova montagem da peça de meu amigo Dib Carneiro Neto, ‘Salmo 91’. Foi o primeiro texto que o Dib escreveu para teatro – a primeira montagem foi de Gabriel Villela em 2008 – e ele ganhou o Shell de autor. O novo ‘Salmo’ integra a programação da 5.ª edição do Festival Latino-Americano de Teatro da Bahia, o Filte. Hoje à tarde tem debate no Teatro da Aliança Francesa, seguido de nova apresentação da peça. À noite, pretendo ver ‘La Comida’, que Cibele Forjaz montou com um grupo argentino. Elisa, sobrinha do Dib, está aqui conosco. Elisa é atriz. Quer dizer, ainda estuda para ser atriz, embora, pelo que entendi, queira mesmo é ser diretora. Elisa curte demais esses encontros com diretores e colegas atores. Ontem, depois da apresentação, fomos comer no restaurante de um dos integrantes do elenco. Nunca havia comido uma fogazza na vida. É a especialidade da casa. Comi uma com recheio de carne de sol e camarão, meio a meio, que delícia! Adoro viajar, vocês sabem, e me ofereço para acompanhar o Dib com a peça pelo prazer de conhecer pessoas e também de descobrir as possibilidades dramatúrgicas do texto. Vocês já ouviram isso de que se a gente mostra o mesmo roteiro a vários diretores, cada um fará seu filme e eles serão forçosamente diferentes. O teatro é a prova dessa pluralidade de visões/versões. Tenho discutido com o Djalma e o Dib sobre a duração da montagem do Gabriel. Uma hora e pouco, 90 minutos, no máximo. A versão do Djalma é mais longa – 2 horas e 10, ou 15. Ele cria outro tempo, psicologiza os personagens – o que Gabriel, principalmente, evitava – e o resultado é diferente. Já vi três montagens do ‘Salmo’, a do Gabriel, a uruguaia, por um grupo de Montevidéu, e agora a ‘baiana’. A peça é um presente para bons atores.  Dib transformou sua adaptação de ‘Estação Carandiru’, de Drauzio Varela, sobre o massacre na maior penitenciária do Brasil, em São Paulo, numa sucessão dez monólogos, abrindo com a referência ao salmo bíblico, que só é declamado no desfecho. Mil cairão ao teu lado, e dez mil à tua direita, mas nada (nem a escuridão nem a peste) chegará a ti. Na concepção do Dib, os dez monólogos poderiam ser feitos por dez atores ou por dois, cada um criando cinco personagens. Foi Gabriel quem teve a ideia de utilizar cinco atores, cada um criando dois personagens. Djalma mantém, como direi, a fórmula, mas é curioso como suas opções de elenco também são diferentes. Ele queria atores de diferentes escolas e formações, e através do trabalho de mesa e das contribuições individuais chegou a outro desenho cênico. Não quero comparar, nem é o caso. A peça não propõe um relato realista do massacre, mas centra na questão da marginalidade. Até pela ‘psicologização’, acho que transparece a afirmação das opções de cada um. O velho que quer que o filho prossiga com a tradição criminosa da família, o enfermeiro Edelso que só espera sair da cadeia para voltar ao exercício ilegal da medicina (e salvar vidas), o cara com as duas mulheres, Zé da Casa Verde, que sonha unificar as duas famílias etc. Gostei da experiência intensa de conviver por duas horas com aqueles atores (Duda Woyda, Rafael Medrado, Lucas Lacerda, Lúcio Tranchesi e Fábio Vidal, que, por sinal, se apresenta em São Paulo na quarta e na quinta com seu solo baseado em Guimarães Rosa). Eta ‘baianada’ (sem preconceito) boa! Na sua montagem, Gabriel fazia Véronique, a travesti, dublar ‘Índia’, de Gal Costa. Djalma prometeu uma surpresa ao Dib. ‘Soltaí o som, maestro’, ela grita em cena e entra Alcione, a Marrom. Posso até gostar mais da intendidade de outras personagens, mas é impressionante a empatia de Véronique. Em todas as montagens, é com ela, com a sua viadagem, que o público relaxa. Djalma, que trabalha com a questão da sexualidade aqui em Salvador, fez a Véronique dele mais amarga, mais consciente da própria miséria. A cena dela termina sempre com a chuva de papel picado simulando a neve. É de cortar os pulsos.

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