As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

No abismo de Herzog

Luiz Carlos Merten

21 de novembro de 2012 | 14h34

RIO – Cheguei ontem e, se contar para vocês que fui rever à noite ‘Gonzaga’ no Odeon, não sei se vão me acreditar. Gosto demais do filme, e de seu elenco, de sua trilha. Choro de me desidratar. Mas não vim ao Rio por isso, mas para entrevistar Werner Herzog, na abertura do Festival 4 + 1, da fundação espanhola Mapfre. O festival ocorre em cinco cidades simultaneamente – Rio, Bogotá, Buenos Aires, Cidade do México e Madri. No Rio, as sessões serão, até domingo, no CCBB, mas a característica desse festival é que ele tem uma plataforma na internet – Filmin – e você pode ver pelo computador, e até dia 30, os 14 filmes selecionados, mais os que compõem a homenagem a Herzog. Os longas da competição incluem ‘La Folie Almayer’, de Chantal Akerman, ‘La Demora’, de Rodrigo Plá, e ‘Crazy Horse’, de Frederick Wiseman. Na homenagem a Herzog, desatacam-se ‘Herakles’, o primeiro curta que ele fez, em 1962, e ‘Into the Abyss’, em que viaja à América profunda para entrevistar um condenado à morte, no Texas. Já havia tido uma experiência anterior não muito boa com Herzog. Não havia rolado química entre a gente, foi um encontro tenso, um horror. Hoje, cheguei, no fundo, meio intimidado, mas ele estava em estado de graça. Falei de minhas entrevistas recentes com Claudia Cardinale e Angela Winkler, não sei se isso ajudou, mas foi ótimo. Gostaria de ter tido mais espaço para dar conta de tudo o que falamos. Em seus grandes filmes, ‘Aguirre’, ‘Kaspar Hauser’, ‘Into the Abyss’, Herzog confessou que o que o move é o seu desejo de mergulhar no abismo da alma e da mente humanas. Me falou do método, e isso não pude colocar na matéria. É um diretor que filoma pouco. ‘Into the Abyss’ tem 1h45. Todo o material fimado – no corredor da morte e com advogados e familiares das vítimas como do assassino – somou 8 horas. Herzog já sabia o filme que ia fazer, como ia montar, mas mesmo assim foi uma experiência tão radical que ele e seu montador, que haviam parado de fumar, voltaram a fazê-lo. Volta e meia paravam com o trabalho para ir fumar (e relaxar). Herzog deixou claro para o seu personagem que não havia nenhum compromisso de simpatizar com ele. Nada que pudesse relatar – o horror da vida familiar ou o quê – seria desculpa para os crimes brutais, pelos quais era responsável. O cara, provavelmente porque não tinha mais nada a perder – foi executado uma semana depois -, o aceitou como interlocutor. Nunca houve um mergulho como este na mente de um assassino – nem quando Truman Capote escreveu ‘À Sangue Frio’, que Richard Brooks filmou (e bem). A ausência de simpatia não impede que haja reaspeito na diversidade. Herzog diz que seus filmes não são políticos. Não fez ‘Into the Abyss’ como libelo contra a pena de morte. Mas ele concorda que a dimensão política está ali. A forma como os homens e o Estado matam. Comentando o que me disse Angela Winkler sobre seu trabalho com Volker Schlondorff – a entrevista com a Lulu de Bob Wilson saiu no ‘Caderno 2’ de segunda -, ele fez uma observação interessante. Angela me disse que fazer cinema político nos anos 1970 não era opção. O mundo, o background eram tão políticos que as coisas saíam daquele jeito. Herzog não fez propriamente uma comparação, mas disse – você vê hoje ‘A Honra Perdida de Uma Mulher’ e sabe que é um filme de 1975, ou 76. Vê ‘Aguirre’ ou ‘O Enigma de Kaspar Hauser’ e parecem ter sido feitos ontem. Não sei se estou conseguindo compartilhar essas coisas com vocês. Tive grandes encontros, como jornalista, em minha vida, mas as entrevistas das últimas semanas e meses, com Carax, Marina Abramovic, Claudia Cardinale e agora Herzog têm sido demais.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.