As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Nirlando, ou como ficará o QI no Guia da Vida Contemporânea?

Luiz Carlos Merten

09 de maio de 2020 | 17h19

Tentei conseguir com amigos o e-mail de Marta Góes, que foi minha editora no Caderno 2. Me passaram um número de celular, mas não liguei. Há tanto tempo não falo com Marta, não queria ser invasivo, mas queria lhe enviar meu abraço de solidariedade. Marta era mulher de Nirlando Beirão e, como todo sábado, desde que começou o isolamento, o meu café da manhã da Trigonela vem sempre acompanhado da CartaCapital, que o delivery, a caminho de casa, apanha na banca do Hélio. Tragédia consumada – é a manchete da atual edição, sobre uma imagem de cemitério. Explodem os números da Covid no Brasil! O horror, o horror. Mais em cima, o Adeus a Nirla, com chamadas para os textos de Mino Carta e Drauzio Varela, que ainda não li, despedindo-se do jornalista Nirlando Beirão, que morreu no dia 30 de abril. Nirlando integrou e até comandou a equipe fundadora do Jornal da Tarde. Muitas vezes cruzei com ele na redação do Estado, a gente trocava Bom-dia, Boa tarde, mas não creio que alguma vez tenhamos falado, nem no jornal, nem nas estreias de teatro em que encontrei a Marta, e ele a acompanhava. Não sei desde quando, mas já há algum tempo um dos meus prazeres, face a tanta coisa ruim que aconteceu comigo e continua acontecendo com o Brasil, era ler o Nirlando toda semana na Carta. Até onde sei, ele vinha perdendo a capacidade de locomoção, mas isso com certeza não afetou a excelência do texto. Era incisivo com as palavras. Brilhante, inteligente, mordaz. Um Telmo Martino straight. No QI do Guia da Vida Contemporânea, que não será o mesmo sem ele, escreveu suas últimas crônicas sobre um tal diário da quarentena, com tópicos preciosos sobre Sérgio Moro e Regina Duarte (sobre ela, não me esqueço de outra crônica, sobre mulheres que envergonham outras mulheres), os ícones da pátria amada, Brasil e a volta do maldito livrinho, o Almanaque do Exército, para tentar ajudar a gente a entender os militares que acobertam o presidente. O mais triste é que essa gente no poder devia tratar Nirlando como inimigo, um zumbido incômodo e jamais vai entender o que estamos perdendo. Nunca fomos amigos, mas, à distância, o sentimento, como leitor, é o mesmo que Dr. Drauzio colocou na chamada da capa. ‘Das limitações que a vida impõe, talvez a mais impiedosa seja a de perder amigos queridos.’ Disso eu entendo. Nunca mais o Nirlando. Lembrei-me do encontro de William Wyler e Billy Wilder no enterro de Ernst Lubitsch. “Nunca mais Lubitsch!’, lamentou Wyler. ‘Pior, nunca mais os filmes de Lubitsch!’, retrucou Wilder. Estou lamentando comigo – nunca mais os textos do Nirlando!

Tendências: