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Ninguém é perfeito!

Luiz Carlos Merten

30 de junho de 2013 | 09h50

Nem Billy Wilder! Confesso que várias vezes cedi a tentação de encerrar um texto sobre o grande Billy lembrando a frase de Joe Brown para Jack Lemmon no desfecho de Quanto Mais Quente Melhor. Ninguém é perfeito, mas o cinema de Wilder é. A frase é boa, mas é só isso – uma frase. Uma retrospectiva como a do CineSesc, que permite a revisão da obra integral,  termina por revelar os baixos – que todo criador também tem. Gosto, claro, de Pacto de Sangue, Crepúsculo dos Deuses (Sunset Boulevard) e Quanto Mais Quente Melhor, mas confesso que a santíssima trindade do cinema de Wilder às vezes me cansa. O ‘meu’ Wilder é o ‘menos’. Menos o quê? Virulento, ele nunca deixou de ser, critico também não, mas gosto do velho cínico que se deixar impregnar de um certo romantismo e que flerta com o gótico. Ou seja – Se Meu Apartamento Falasse, A Vida Íntima de Sherlock Holmes, Avanti  Amantes à Italiana, que é, para mim, o testamento do grande diretor. Adorei rever Inferno 17, mas meu prazer é muito subjetivo. Gosto muito de Otto Preminger no papel de nazista, caricaturando o autoritarismo de que era acusado em seus sets, e também me diverti com aquele elenco de apoio – o futuro diretor Don Taylor, Peter Graves, que depois virou astro de MIssão Impossível, a série de TV. Don Taylor! Confesso que, entre meus guilty pleasures, estão alguns filmes que ele fez, como o terceiro O Plano dos Macacos, O Exército de Cinco Homens, A Profecia 2 (Damien, com a incrível cena do lago congelado) e O Nimitz Volta ao Inferno. O porta-aviões mais poderoso da Marinha americana entra numa fenda do tempo e vai parar em Pearl Harbour, naquele ‘dia’, o do ataque japonês. Pode-se inverter o curso da história? E, se isso for possível, quais as consequências? Mas eu volto a Wilder. Havia um filme dele que nunca vi – Águia Solitária, The Spirit of Saint Louis, com James Stewart como Lindbergh. Não sei nem o que dizer, exceto que a trilha é boa. E revi Cupido não Tem Bandeira, que ostenta a fama de ser o pior Billy Wilder. Bem – para dizer a verdade, é o pior Wilder, embora, paradoxalmente, seja muito engraçado e eu ri bastante. Mas, como metáfora política, o choque capitalismo/comunismo remete a Ninotschka, que Wilder escreveu, mas é Ninotchska sem Garbo e Ernst Lubitschy sem elegância. O melhor do filme é a mulher de James Cagney, a sra. McNamara, Arlene Francis, que tem as falas mais inteligentes e possui certa humanidade num filme que é só grosseiro e caricatural. Não revi agora, mas preciso revisar meu conceito. Cupido talvez não seja o pior Wilder pelo simples fato de que, em 1964, ele cometeu Beija-me Idiota. Não estou propondo nenhum revisionismo. Wilder é grande, continua grande, mas a verdade é que nem ele ou seu cinema são perfeitos.

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