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Nichols, de bom tamanho

Luiz Carlos Merten

22 de novembro de 2014 | 09h18

RIO – Cá estou, de novo,. Cheguei quinta para a Semana dos Realizadores. Volto segunda porque nesse dia e no seguinte começam dois (dois!) festivais de cinema italiano em São Paulo. Vindo para a sucursal – especificamente para postar -, pensava como, sob certos aspectos, minha vida mudou. Antes, se não acrescentasse uns dez posts diários, achava que meu dia tinha sido perdido. Agora, tenho feito tanto material para o portal que o blog ficou para segundo plano. É verdade que a dificuldade de comunicação com os leitor também tem me desestimulado. Mas, enfim, é muita coisa pára falar, para dar conta sobre esses dias que estivesse ausente (daqui). Vamos por etapas. Morreu Mike Nichols, aos 83 anos. Com Barbra Streisand e alguma outra personalidade top de linha, foi um dos raros artistas que conseguiu ganhar a tetralogia dos grandes prêmios do show bizz americano. Oscar (de direção, por A Primeira Noite de Um Homem), Emmy, Tony, Grammy. Não é pouca coisa, mas, mesmo assim, acredito numa coisa que escrevi em meu texto para o Estado. Talentoso como era, e profissional, Mike Nichols poderia ter sido maior. Ele fez coisas importantes – o citado A Primeira Noite, Angels in America (na televisão) -, mas sua vocação de entertainer o levou, naturalmente, a intercalar projetos ambiciosos com comédias que poderiam ter sido realizadas por não importa quem (embora ele, talvez, as fizesse melhores). Tive o privilégio de falar duas vezes com Mike Nichols. A primeira em Veneza, quando cobria o festival para o Estado e ele mostra A Segunda Chance, ou Uma Segunda Chance, com Harrison Ford, e mais recentemente, em Berlim, quando foi homenageado pelo festival. Andava decepcionado com Hollywood e rezava na cartilha de que a salvação estava na TV. Já tinha mais de 20 anos quando vi A Primeira Noite pela primeira vez e me identifiquei de imediato com Benjamin Braddock, mesmo que a minha vida como garoto remediado de Porto Alegre fosse bem diferente da de um jovem de Beverly Hills que podia se dar ao luxo de se isolar do mundo no fundo da piscina de casa (com direito a trilha de Simon e Garfunkel de acompanhamento). Mas Nichols captou e colocou na tela um mal-estar que no seguinte ia estourar – A Primeira Noite é de 1967. E Anne Bancroft deveria ter ganhado o Oscar. Sua Mrs. Robinson é uma das grandes personagens femininas de Hollywood. Em sua trajetória ziguezagueante – poderia escolher, mas muitas vezes deixou-se ser escolhido -, Nichols volta e meia voltava ao tema do sexo, que focava de forma adulta. Ânsia de Amar, Closer/Perto Demais, o próprio Jogos de Poder. E houve, claro, Angels in America, o grande flagelo da aids, que fustigou toda uma geração. Insisto que Mike Nichols poderia ter sido maior, mas o que ele logrou já está de bom tamanho. Sua morte me entristeceu.