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Nesta terça, 100 anos. Que mudaram todo o cinema

Luiz Carlos Merten

07 de novembro de 2017 | 09h43

Comemoram-se nesta terça, 7 de novembro, os 100 anos da Revolução Russa. Muita gente acha que não há o que comemorar, mas, sinto, a Revolução de Outubro foi, e ainda é, uma data na história do homem. Outubro, 25, no calendário juliano. Novembro, 7, no gregoriano. Os bolcheviques, liderados por Lenin, insurgem-se contra o governo provisório. No clima de polarização em que vivemos, hoje, no Brasil e no mundo, o pensamento de direita, fortalecido, quer apagar tudo que não seja ele – a crítica que faz à esquerda. Nunca esqueci o que disse Walter da Silveira num livro de 1966, na Coleção Tempo Novo, das Edições Tempo Brasileiro Ltda. Fronteiras do Cinema. prefácio de Jorge Amado. Uma coletânea de ensaios. No que encerra o livro, O Instrumento do Humano, Walter da Silveira resume a ‘sua’ história do cinema. Na confusão que é minha casa, livros, revistas e DVDs misturados, demorei um tempão para localizar o volume. Queria reproduzir a frase exata. Eram outros tempos, aqueles, mesmo sob a ditadura cívico-militar. Walter da Silveira afirma, e isso não mudou, que a obra de Sergei M. Eisenstein se apresenta, do ponto de vista da arte,. de qualquer arte, como a grande realização do socialismo russo. E a citação que quero que seja exata – “Não importa se a Revolução de 1917 constitui um acerto ou um equívoco. O fato nos interessa como uma data na história do homem, um marco da ideologia.” Eisenstein, um burguês que queria ser aceito como revolucionário, pensou todas as artes para concluir que o cinema, à luz da dialética marxista, como linguagem, deveria se iniciar por uma tomada de posição diante dos processos da montagem, cuja origem, ele sabia, estava em David W. Griffith. Uma obra de arte, concebida dinamicamente, dialeticamente, consistiria no método de organizar as imagens nos sentimentos e na consciência do público. Foi o que ele fez na célebre sequência da escadaria de Odessa, em O Encouraçado Potemkin, que Eric Hobsbawm considera(va) a mais importante de todos os tempos. Não é mais, sorry, porque, também gostando-se ou não, Alfred Hitchcock iniciou outra revolução com o assassinato de Marion Crane na ducha de Psicose. O importante é que, não apenas naquela escadaria, mas na tomada do palácio de inverno pelo povo em Outubro e na penetração dos métodos socialistas no campo em A Linha Geral, Eisenstein engajou sua estética – sua montagem -, o que não o impediu de ser acusado de desvios ideológicos, com as consequências que todo cinéfilo sabe. Eisenstein talvez tenha sido o caso mais radical, mas o cinema russo dos anos de ouro, a implantação dos sovietes, foi glorioso. Não é possível amar o cinema sem reverenciar esses caras. Eles mudaram tudo. Retiraram o cinema das feiras e lhe deram um significado profundo. O período pré-revolucionário inspirou A Mãe, de V.I. Pudovkin, outro grande teórico da montagem – a cena do degelo é antológica – e a coletivização está no centro de Terra, de Alexander Dvjenko, que me desculpem os devotos de Eisenstein, mas é o ‘meu’ clássico russo- o conflito entre o ‘novo’ e o ‘velho’. Acho que é impossível falar desses 100 anos sem focar o cinema, que Lenin considerava a mais importante das artes, com certeza por seu potencial de propaganda, e todos esses artistas militaram pela revolução. Se houve uma ressaca depois – como no Maio de 68 -, não é o caso, aqui. Não estou nem lembrando Dziga-Vertov ou Alexandre Medvedkin, com seu cinema-trem e a obra-prima satírica A Felicidade. No cinema, e malgrado todos os problemas, as perseguições, a censura, esses 100 anos constituem não vou dizer o maior acerto da história dessa arte – afinal, tivemos o neo-realismo, a nouvelle vague, o Cinema Novo, etc -, mas equívoco, nunca. Cem anos que mudaram – tudo.

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