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Nessa longa estrada da vida…

Luiz Carlos Merten

04 Março 2015 | 23h43

Corri tanto ontem que terminei perdendo a deixa para acrescentar um post sobre Zé Rico, que morreu aos 68 anos, de infarto. Não sei de vocês, mas sempre tive um carinho imenso pela dupla Milionário/José Rico. Culpa disso é de Nelson Pereira dos Santos, que, em 1980, se antecipou a Breno Silveira (e a 2 Filhos de Francisco) com A Estrada da Vida. Na época, vivia em Porto Alegre. Escrevi um texto no Coojornal, o jornal da Cooperativa dos Jornalistas. A Estrada da Vida situa-se entre filmes mais prestigiados de Nelson – O Amuleto de Ogum e Tenda dos Milagres antes, Memórias do Cárcere depois. Amuleto e Tenda têm tudo a ver com uma cultura  nacional e popular, na vertente gramsciana. Tudo nesses filmes levava Nelson a Milionário e José Rico. Como nessa quadra da minha vida é mais importante estar bem comigo mesmo, vou logo dizendo que não tenho muita paciência com nossos artistas eruditos. Alguns, até que sim, mas agora mesmo, em Berlim, assistindo ao curta de Joel Pizzini ‘inspirado’ em Limite – e lendo o livro que José Carlos Avellar escreveu sobre o filme de Mário Peixoto –, fiquei no limbo, mais uma vez, sem saber o que pensar direito sobre uma das obras mais cultuadas do cinema brasileiro. Nunca consegui entrar no mistério de Limite. Tenho uma admiração fria pelo filme, e nem sei se o admiro de verdade, porque a mistificação que o próprio Mário criou para si e para sua obra me cansam. Em bom português – não sinto a visceralidade de Limite e confesso que aquela boquinha de chupar ovo de Mário me trava, nas entrevistas filmadas que permaneceram dele. Mário criou uma persona e foi vítima dela. Billy Wilder e Robert Aldrich já desmontaram essas figuras míticas em filmes ótimos. Crepúsculo dos Deuses, O Que Terá Acontecido a Baby Jane?, A Lenda de Lilah Clare. Mário daria um grande personagem de ficção, mas para isso seria preciso mandar o ‘respeito’ para as cucuias. O que isso tem a ver com Zé Rico? Nada, e tudo. A Estrada da Vida é sobre o sonho de sucesso de uma dupla sertaneja. Hoje em dia, todo mundo prefere lembrar que se alfinetavam, que viviam em pé de guerra, como gato e rato. Não é o que me interessa. O artista, não como diletante, mas como trabalhador. Milionário e Zé Rico fazem a reforma na loja de discos quando toca a música deles. Já se passaram mais de 30 anos, mas eu ainda me lembro da emoção que a cena me provocou. E o filme de Nelson tem o madrugadão. O canto do galo anuncia o amanhecer, uma massa humana se põe em movimento na periferia, enfrentando trem, ônibus e até uma boa pernada para chegar ao trabalho. Aquilo, até onde me lembro, é  quase um documentário, e muito bem editado, dentro de A Estrada da Vida. Não creio, como se dizia, que a música de Milionário e Zé Rico não tivesse qualidade. E os caras faziam sucesso até na China. Parei para consultar o Dicionário de Filmes Brasileiros de Antônio Leão da Silva Neto. A Estrada da Vida teve público de mais de um milhão (de espectadores). Passou num festival em Shangai e ganhou o prêmio do público em Brasília e na Mostra. Como cantavam Milionário e Zé Rico – ‘Nesta longa estrada da vida/Vou correndo e não posso parar…’ E adiante – ‘Minhas vistas se escureceram/E o final dessa vida chegou.’ Zé Rico adorava os ornamentos. Correntes, aneis. Ostentava. Até nisso era autêntico. Um brasileiro.