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Navalha na Carne Negra cria novo paradigma para o texto de Plínio Marcos

Luiz Carlos Merten

30 Julho 2018 | 09h52

Talvez vocês me considerem exagerado. Talvez seja. Já vi muitas versões de Navalha na Carne – no teatro, no cinema. Nenhuma como a Navalha na Carne Negra, na Sala Multiuso do TUSP, Teatro da Universidade de São Paulo, Centro Universitário Maria Antônia. Havia me programado de ver outras coisas no fim de semana, mas os horários não fechavam. Encontrei essa peça às 7 da noite de domingo, que me convinha. O simples fato de ter visto O Caso do Homem Errado no sábado contribuiu. Há uma questão negra no Brasil, um racismo insidioso porque velado, travestido de democracia racial. Não tinha referência nenhuma, mas o título me pareceu atraente, Navalha na Carne Negra. E a peça é poderosa. Confesso que cheguei a pensar – mesmo se for ruim vai ser bom, porque me parece difícil estragar aquela peça. O fôlder do programa já foi um choque. O diretor e criador do dispositivo cênico, José Fernando Peixoto de Azevedo, e seu elenco são negros – pretos, como se autodefinem. Artistas atuantes no esforço de elaboração de perspectivas para um teatro preto. A palavra é forte e talvez perturbadora. Todo mundo milita. A atriz Lucelia Sergio é fundadora do coletivo Os Crespos, Raphael Garcia, ator, cofundou o Coletivo Negro, José Fernando foi fundador e diretor do Teatro de Narradores e colabora com os Crespos, Rodrigo dos Santos integrou a Companhia dos Comuns, no Rio. A fundamentação teórica da montagem parte da constatação de que o texto de Plínio Marcos – uma prostituta, seu gigolô e o camareiro gay do hotel de quinta que furtou o dinheiro que a primeira deixara para seu macho – termina por refletir uma situação que remete às raízes do Brasil. O negro, tendo sido escravo, conhece melhor que ninguém a alienação do corpo que está na essência da dramaturgia de Plínio. Neusa Sueli queixa-se do cansaço da viração, Veludo a chama de galinha velha e até Vado, ou principalmente ele, a humilha. Neusa Sueli, afirma o texto no fôlder, é o corpo-coisa, o corpo mercadoria, o corpo-objeto. Mas ela, como Veludo, tenta superar sua condição miserável. Ela se humaniza na sua dignidade aviltada, e ferida. Em geral, o gigolô é um cafajeste como o criou Jece Valadão no filme de Braz Chediak. Vado, nessa montagem, é a mais triste das três figuras, fingindo possuir a força que não tem, e por isso Veludo zomba dele. Vado é um animal, um chacal que pensa que é cachorrão. Com a utilização de multi-elementos cênicos – câmera de vídeo, telões -, a montagem é um acontecimento. Vai até dia 12, de quinta a domingo. De alguma forma me lembrou a Carmem negra de Otto Preminger, Carmem Jones, com a deslumbrante Dorothy Dandridge. Volto ao começo. Talvez eu exagere, pode ser, mas nunca vi uma Neusa Sueli tão bela nem tão intensa quanto Lucelia Sergio. Quando ela tira o aplique loiro e libera o cabelo crespo, uma juba, a leoa solta-se no espaço cênico, que não é um palco tradicional. E Rodrigo dos Santos, o Vado. Quando nós, o público, entramos na sala, ele está na cama, de cueca, e a câmera, operada pela cinegrafista, percorre seu corpo como objeto de desejo. Vado se autoproclama gostoso, cobiçado por todas as mulheres da zona. Raphael Garcia, o Veludo, termina provocando certo alívio cômico não porque o ator seja caricato, mas porque no fundo o público projeta seu preconceito quando ele diz ‘Viu, Neusa Sueli, como se trata macho?’ Fui ver Navalha na Carne Negra como curiosidade e assisti a um dos melhores espetáculos em cartaz. Com todo respeito pela ex-namoradinha do Brasil, Regina Duarte foi indicada para o Shell destoando do restante do elenco e dizendo seu texto com ponto em O Leão no Inverno. Lucelia Sergio está concorrendo? Não vou dizer nada do Shell, que já foi honrado por talentos como Dib Carneiro (melhor autor) e Gabriel Villela (vários como diretor).