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Nas bordas

Luiz Carlos Merten

17 de setembro de 2012 | 09h03

Não me lembro de haver assistido a alguma montagem de ‘Senhorita Júlia’, mas pode ser, em caso afirmativo, que ela, ou elas, tenham sido ofuscadas pelos filmes – as versões de Alf Sjoberg, de 1951, que ganhou o Festival de Cannes e criou o paradigma das cenas em que passado e presente coexistem nas mesmas imagens, recurso repetido por Ingmar Bergman em ‘Morangos Silvestres’, e por Paul Newman em ‘Rachel, Rachel’; e também as versões de Mike Figgis, ‘Miss Julie’, com Saffron Burrows e Peter Mullan, e a de Sérgio Silva, ‘Noite de São João’, com Fernanda Rodrigues e Marcelo Serrado, que venceu o Kikito de melhor ator em Gramado pelo papel. Fui ver ontem a ‘Júlia’ de Christiane Jatahy, no Sesc Belenzinho. Assistia à montagem, que, como sempre, na obra da diretora, se situa nas bordas do teatro e do cinema, quando me deu a ideia que copmuniquei a Christiane, ao encontrá-la, no fim. Começa hoje o Festival de Gramado. Deveria ir para a abertrura, e ficar dois ou três, mas estou mudando o rumo e explico, depois, por quê. O festival começa com o longa de Márcio Curi ‘A Última Estação’, que trata da imigração libanesa no Brasil, tema já revisitado por Otávio Cury em ‘Contantino’, na Mostra Mundo Árabe – e que também estará no Festival Indie. Curi, proldutor dos filmes radicais de André Luiz Oliveira., ‘Loucos por Cinema’ e ‘Sagrado Segredo’, aposta na emoção e numa narrativa tradicional, que eu não sei como será recebidas num evento em que Júlio Bressane tem cadeira cativa no pódio dos vencedores. A minha ideia é testar até onde vai o gosto de Brasília pela invenção e pelo risco. Se Christiane tivesse inscrito ‘Júlia’, teria sido selecionada? Eu, se fosse selecionador, não vacilaria. Quem sabe a Mostra de Tiradentes? ‘Júlia’ tem uma parte pré-filmada e outra que a dupla de protagonistas encena no palco, seguida por uma câmera e as imagens são projetadas em telão. Não se trata de incorporar o vídeo à encenação, como fazem, com mais ou menos invenção, outros diretores. Uma parte decisiva da montagem é o filme ao vivo e Júlia interage com o operador da câmera, transformado em ator. Júlia Bornat e Rodrigo dos Santos têm as cenas de sexo mais calientes que já vi no teatro e o fato de formarem um casal birracial incorpora um subtexto à questão de classes do texto original. Mais ‘corpos em ebulição’. Confesso que fico frio vendo cenas de sexo na tela, mas me causou uma perturbação imensa a fresta do cenário pela qual podia ver os movimentos rítmicos do casal despido. A coragem dos dois. A beleza, o talento. Rodrigo foi um dos atores de ‘Filhos do Carnaval’, a minissérie de Cao Hamburger na HBO. Júlia é jovem, 23 anos, mignon , e a câmera, obviamente, está enamorada dela. E o melhor de tudo é que, para lá do sexo e do diálogo de mídias, Strindberg está no palco. A frase mais importante do espetáculo vem da peça, mas reescrita pela diretora. A cozinheira diz ao criado, seu amante, que se os patrões não se dão ao respeito – como Júlia, que faz sexo com ele –, então a vida deles não faz sentido. Christiane Jatahy é jovem, talentosa. Ficção e documentário já se acomodaram num ‘formato’. O cinema brasileiro mais radical está sendo feito nas bordas… do teatro.

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