As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Nas areias do tempo, com El Aurens

Luiz Carlos Merten

10 de setembro de 2020 | 10h32

Fazia tempo que não revia Lawrence da Arábia. Na terça, ao redigir os filmes na TV, vi que passaria no Telecine Cult na quarta e até pensei em fazer um destaque, mas aí encontrei o Jasão na programaç~so e troquei o rumo. Ontem, zapeando, revi o final de Spartacus e, na sequência, entrou o clássico de David Lean. Não me lembrava que a versão para TV, manteve a introduição – a tela escura e a suíte sinfônica de Maurice Jarre. Resolvi rever o início, o acidente de moto, depois o início do flash-back, a descoberta do deseto e o encontro de Lawrence com o xerife Ali. Mais um pouquinho, mais um pouquinho e terminei entrando pela madrugada. Logo no começo, no funeral, o repórter colhe depoimentos, e se aproxima sempre com a fórmula – ‘O senhor, que conheceu Lawrence…’ Mas, na verdade, ninguém conheceu T.E.Lawrence, exceto nós, o público. O longo flash-back não reconstitui a vida dele de diferentes ângulos, à manreira de um puzzle, como em Cidadão Kane, mas só nós podemos reconstituir o enigma. O filho bastardo do lorde, o exibicionista que se considera predestinado, o gay que não saiu do armário e viveu a traumática experiência de ser brutalizado pelo bei turco. Há o extraordinário plano-sequência em que El Aurens, de branco, após a violência sexual, encontra o prazer da vingança, matando no campo de batalha. O problema é que, ao destruir o outro, ele também está se destruindo internamente – termina com a roupa lavada de sangue. No seu Classic Movie Guide, Leonard Maltin define Lawrence da Arábia como uma raridade entre os blockbusters – um épico que também é ‘literário’. Quando se encontra com Faiçal/Alec Guinness, Peter O’Toole revela por um momento sua fascinação pelos ‘arabs’, e pelo deserto. E Faiçal – Guinness, supermaquiado para criar um olhar sombrio – diz a frase chave. ‘Ah, mais um inglês apaixonado pelo deserto!’ Talvez, no limite, o grande personagem do filme de David Leam seja o deserto. E por isso, Lean e seu diretor de fotografia, Fred A. Young, mostram o deserto com grandiosidade, em planos longos, reduzindo as hordas de guerreiros a proporções liliputianas. Em 1962, Lean criou um paradigma na forma de filmar o deserto e eu tenho a impressão de que só quase 30 anos mais tarde, com Bernardo Bertolucci e Vittorio Storaro em The Sheltering Sky, O Céu Que nos Protege, de 1990, o deserto virou de novo ‘o’ personagem. Nunca fui um grande admirador daquele Bertolucci e até acho que ele se perdeu nas areias, mas depois de rever o David Lean me bateu o desejo de rever também O Céu Que nos Protege. No Terçou dessa semana, coloquei o Bertolucci, que está disponível no Belas Artes a La Carte. Acho que vou encarrar.