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Não termina nunca!

Luiz Carlos Merten

05 Dezembro 2016 | 00h53

Entrevistei ontem na Comic Con James Gunn, diretor de Guardiões da Galáxia – Volume 2, a dupla John Musker e Ron Clements, de Moana – Um Mar de Aventuras – e Brian Herring, o artista responsável pelos efeitos especiais de Rogue One – Uma História (de) Star Wars. Hoje pela manhã, estava cedinho na São Paulo Expo para o painel da Warner. Imagens de Kong – A Ilha da Caveira, apresentadas pelo diretor Jordan Vogt-Roberts, seguidas do (rei) Arthur de Guy Ritchie e Liga da Justiça e Mulher Maravilha. Zack Snyder! O ‘deus’ Henry Cavill. E Eddie Redmayne, agradecendo, em vídeo, ao público brasileiro pela acolhida a Animais Fantásticos. Comentei com meu editor, Ubiratan Brasil, que a Comic Con Experience virou um grande negócio e um evento que mobiliza a cidade. É preciso dar mais espaço a esse evento geek. Na quinta, 1.º, os cartazes anunciavam – ‘Vai ser épico.’ No sábado e domingo, o tom já era outro – ‘Viva o épico.’ Neste domingo, o pavilhão da São Paulo Expo estava lotadaço e a sala Cinemark, com seus 3500 lugares, não acolhia mais uma pulga, que dirá gente. Um monte de malucos vestidos como seus super-heróis favoritos. Ontem pela manhã, havia entrevistado Frederick Wiseman por telefone, em Paris. Falando sobre seu filme de imigrantes, Em Jackson Heights, ele citou temas como afeto e solidão. James Gunn usou exatamente as mesmas palavras para falar dos personagens de Guardiões 2 – um aventureiro da galáxia, um guaxinim falante, um homem-árvore! E neste domingo – tecnicamente, ontem -, Jordan Vogt-Roberts, sobre seu (king) Kong. ‘Quem nessa sala nunca se sentiu esquisito, solitário?’, perguntou. Kong é o último de sua espécie. Caminha sozinho no mundo, e o filme tenta nos fazer compartilhar a experiência. É o que amo no cinema. Sua diversidade. Conversei com James Gunn sobre Frederick Wiseman e Chris Pratt. Frederick quem? Nãããooooo. Não é por estar fazendo um filme sobre os heróis mais bizarros do universo que Gunn não sabe quem é o grande Wiseman. Citou seus filmes. Está saindo (mais) um livro com textos de Paulo Emílio Salles Gomes. Para um autor que morreu em 1977, há quase 40 anos, é curiosa essa adoração a um crítico que não teve tempo de vivenciar a grande revolução tecnológica que mudou a face do cinema. Ou não? Certos conceitos podem continuar válidos. Outros, nem tanto. Talvez estejamos precisando de um pensamento mais moderno. Em A Odisseia do Cinema Brasileiro, Laurent Desbois praticamente ignora, aleluia!, Mário Peixoto e o mítico Limite em sua revisão crítica – o livro é, basicamente, sobre o cinema brasileiro da Retomada -, cutuca Paulo Emílio por haver ‘pensado’ os começos de Nelson Pereira dos Santos e Walter Hugo Khouri como embate entre futuro e passado, descolonizados e alienados culturais. Desbois ousa igualar Glauber e Khouri como os únicos autores do cinema brasileiro dos quais se pode falar da coerência no corpo da obra. Só isso já é uma provocação e tanto, mas o (ex?) colaborador de Cahiers ainda ousa mais ao reabilitar Carlos Hugo Christensen e seu O Menino e o Vento. Enquanto isso, nossa crítica ‘burguesa’ (na Abraccine?) segue atarraxada a um pensamento estratificado. Ando exasperado, senão exatamente cansado. Houve hoje/ontem uma passeata contra a corrupção. Fora Renan, fora Rodrigo Maia. Fora! Mas por que não Fora, Temer? Oito meses já configuram um parto, mesmo prematuro. Com a imprensa e aliados políticos, todo mundo a favor – e o Congresso paralisou o governo Dilma -, os indicadores negativos não só não pararam, como despencaram ainda mais. O homem, borrado de medo de ser vaiado, não queria nem reverenciar os mortos da Chapecoense. Foi preciso um assessor (quem?) chacoalhá-lo. Eu digo – a série ‘O horror, o horror’ não termina nunca.