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Não é sobre rouxinóis (o Inferno de Garolli, no projeto Homens à Deriva)

Luiz Carlos Merten

22 de setembro de 2019 | 10h43

Not about Nightingales. Não é sobre rouxinóis. Fomos ontem à noite ao teatro, Orlando Margarido e eu. À tarde, e depois de muito ser cobrado por minha amiga Renata Cajado, que fez a assessoria do filme, havia visto Divaldo, o Mensageiro da Paz. Surpreendi-me, confesso. Filmar a fé, a crença, me parece sempre uma coisa difícil, e o diretor Clóvis Melo acha o tom principalmente na parte intermediária, quando Divaldo é interpretado por Ghilherme Lobo, o garoto do curta Eu não Quero Voltar Sozinho e do longa Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Ghilherme tem um sorriso triste, uma luz, uma ‘pureza’ que servem ao personagem. Prometo voltar ao assunto. Not about Nightingales é uma peça do começo da carreira de Tennessee Williams. Foi escrita em 1938 e, diferentemente das peças marcadas pelo realismo psicológico e pela sublimação de elementos autobiográficos como a homossexualidade do autor, que o levou a criar aquelas mulheres todas (Blanche, Maggie, Alexandra), caracteriza-se pelo realismo social, numa época em que a América ainda sofria as consequências da depressão econômica provocada pelo crack da Bolsa, de 1929. O teatro épico/lírico de Tennessee Williams, homens numa cadeia, fazendo greve de fome como protesto contra a autoridade e pela afirmação de sua dignidade humana. Há uma metáfora do pássaro, a gaiola carregada pela mãe do detento que enlouquece e a condição do informante, que ‘canta’ as informações para o brutal diretor do presídio. Esse homem, o informante, que carrega no corpo as cicatrizes da violência a que foi submetido, envolve-se com a mulher que veio parar nesse universo atrás de emprego. Ela antecipa algo das heroínas de Um Bonde Chamado Desejo e Gata em Teto de Zinco Quente, e a relação lírica do casal sinaliza para o Tennessee posterior. Inferno – Um Interlúdio Expressionista integra o projeto Homens à Deriva, desenvolvido pelo ator e aqui diretor André Garolli com a Cia. Triptal para abordar as possibilidades de aprisionamento a que a sociedade pode levar as pessoas. Tem tudo a ver com o momento atual brasileiro – e com o estado do mundo -, tendo se desenvolvido (o projeto) num processo que incluiu parcerias, oficinas, arregimentação de pessoal (217 interessados) e o estabelecimento de um repertório que, no limite, levou à realização de quatro espetáculos em que as pessoas, informa o fôlder, se encontram em car’seres’ humanos. Gostei demais da montagem, da concepção cênica, do elenco, da trilha. Um palco cheio de atores, homens e mulheres fazendo os detentos que são fritados pelo diretor da instituição, e sua única justificativa para tanta brutalidade é que ele também está sob grande pressão para manter a situação (o motim) sob controle. Confesso que tenho ido com alguma frequência ao Teatro João Caetano, na Borges Lagoa, mas nem no Festival Internacional de Teatro vi a sala tão cheia, e com um público tão jovem, tão entusiasta. Encontramos o Garolli no fim, e ele confirmou que este domingo, 22, é o último dia naquele teatro, mas a peça deve continuar em outro espaço, pelo que entendi menor, mais fechado, o que levará a uma redefinição cênica do espetáculo. Garolli é ligado a Eduardo Tolentino e eu confesso que não pude deixar de pensar em outra cria do Tapa, Rodrigo Lombardi, um pouco porque a cenografia, aproveitando a amplidão do espaço, me fez lembrar Um Panorama Visto da Ponte – o realismo social de Arthur Miller -, mas também porque vi no outro dia o trailer de Carcereiros – O Filme, que me pareceu bem forte. Não creio que Inferno esteja recebendo o reconhecimento que merece na mídia. Tecem-se loas demais às instalações de uma Bia Lessa. Os processos e as montagens de Garolli e Cibele Forjaz – Os Um e os Outros, pelas Cias. Livre e Oito Nova Dança – me parecem muito mais interessantes, mas sou eu falando.

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