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Não deu!

Luiz Carlos Merten

20 Dezembro 2014 | 12h41

BUENOS AIRES – Cá estou, nesse pré-Natal, de volta à Argentina. Viemos quinta, Dib Carneiro e eu. E porque o documento de meu amigo não foi aceito pela companhia aérea – tivemos de voltar para pegar o passaporte dele -, perdemos o voo da manhã e tivemos sorte, nessa época do ano, de ser realocados no voo da noite, chegando no hotel já na madrugada de sexta. Estamos aqui em Recoleta, junto ao Mall e ao cementério. Revi ontem Adieu au Langage, que continuo amando e que o Dib definiu como o filme mais cabeça que já viu – mais que os outros Jean-Luc Godard. O cachorro de Godard. Roxy, na verdade, é de Anne-Marie Miéville tem o sobrenome dela – Roxy Miéville. Todos os diálogos do filme são citações – há uma longa lista dos autores, no fim. Gostaria de saber quem escreveu uma das frases mais bonitas de Adeus à Linguagem. O cachorro é o único ser da criação que ama o outro (o dono?) mais que a si mesmo. Discutindo o cinema – e a linguagem -, Godard põe em discussão a alteridade, o outro. Já tenho minha lista de melhores do ano na cabeça, mas bem que gostaria de poder incluir o Godard, se ainda fosse lançado nesse finalzinho de ano no Brasil, só que isso não vai ocorrer. Um dos dez mais, um dos cinco mais é Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, e o longa de Daniel Ribeiro não está entre os nove pré-selecionados pela Academia de Hollywood para concorrer ao Oscar. Gosto de alguns dos pré-selecionados – outros, não vi. O polonês Ida, o russo Leviatã, o argentino Relatos Selvagens. Como se trata do maior êxito da história do cinema argentino – o Tropa de Elite 2 deles -, os jornais daqui, Clarín, La Nación etc, colocaram a pré-seleção na capa, como se já fosse uma vitória. Por se tratar de meu primeiro post daqui – na segunda, viajo para Porto Alegre, onde passo o Natal -, vou aproveitar para dar uma geral. Queria conhecer a sala do INCAA, na Calle Rivadavia, que só exibe filmes argentinos. Na verdade, é uma sala de resistência, porque o Adirley Queirós, Branco Sai Preto Fica, está sendo apresentado numa sessão especial. Ia rever Jauja, do Lisandro Alonso, que o Dib não viu, mas a sessão da noite foi cancelada. Vamos ter de voltar hoje ou amanhã. Havia uma sessão ao ar livre, na frente do cinema. Um monte de jovens assentados no chão e gente com cachorros e compras que parava para ver documentários. Era o mote – uma sessão para promover o documentário argentino. Está havendo no Brasil um movimento para reduzir o teto da exibição, impedindo que blockbusters como o novo Jogos Vorazes ocupem mais da metade do mercado. Acho o recurso legítimo, mas não há nenhuma garantia de que se os blockbusters tiverem um teto de, sei lá, 30% ou 50%do mercado, as salas restantes serão ocupadas pelo cinema brasileiro.Teremos mais variedade, isso pode ser, mas a grande questão é fazer com que nós, brasileiros, nos orgulhemos e comprometamos com nosso cinema. Quantos se sentariam na rua, no chão, para prestigiar a produção nacional?