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Não baixa a cabeça, Edgar. A resistência da ética

Luiz Carlos Merten

02 Julho 2018 | 10h43

Voltei ao choque elétrico, por conta da dor na perna – é vodu! -, que me impede de seguir com a físio. Até desisti de ver o jogo do Brasil no Anhangabaú, no meio da massa. Não resistiria ficar de pé durante tanto tempo. Vou ver em casa mesmo. Fui ver ontem o Otto Lara Rezende – Bonitinha mas Ordinária do encenador gaúcho Luís Artur Nunes. Algumas das primeiras peças que vi na vida foram dirigidas por ele, em Porto Alegre. Depois, perdemo-nos no mundo. Tinha a expectativa de que ele estivesse ontem no Teatro Augusta, mas Luís Artur já tinha ido embora. Para o Rio? Até onde sei, é onde vive hoje. Gaúchos desterrados, mas sempre gaúchos? A montagem é honesta, dividida em cenas, cada uma anunciada pelo espaço (Canto de Bar, Casa de Edgar, etc). Faltou brilho, como quando Gabriel Villela tropicaliza a saga de seu Boca de Ouro, transformado em vampiro de Madureira, mas gostei do que vi e, aleluia, dava para entender tudo o que diziam os atores. Peguei depois o fôlder e vi que os créditos de produção incluem preparação de ator, preparação de corpo e preparação vocal. Estava explicado o capricho, não era aquela coisa horrorosa da Regina Duarte, destoando de todo o elenco de O Leão no Inverno. Me explicaram depois que ela usa ponto, jura? Nãããoooo. No palco o ator tem de dominar o texto e projetar a voz. Já vi Bonitinha no palco e na telas diversas vezes. Gosto, na versão com Lucélia Santos, da cena em que a mãe lava a cabeça de Edgar/José Wilker no cortiço e diz para ele ‘Baixa a cabeça’. Ela diz isso porque vai despejar a água, mas na verdade é metafórico. Baixa a cabeça, meu filho. Não seja orgulhoso, aceita o dinheiro. Uma bela ideia de mise-en-scène do diretor Braz Chediak, que, anos antes, já fizera uma Navalha da Carne com Glauce Rocha e Jece Valadão. Nelson Rodrigues era tão enraizado na realidade do seu tempo que muita coisa em seus textos ficou datada. A virgindade da mulher antes do casamento, em Bonitinha. Mas, de resto, como diz Luiz Artur no fôlder, permanece tudo ali. A violência contra a mulher, o racismo, a impunidade. A grande questão é ética – Edgar deve rasgar o cheque ou baixar as cabeça? Existe uma ética no amor, no companheirismo? É possível trair mantendo a integridade? São questões que batem fundo em mim. E Luís Artur usa a música pra pontuar as cenas. Termina, glorioso, com Nelson Sargento. Uma vez, ainda era jovem, estava num hospital, me sentindo f… Era domingo de manhã, nunca esqueço, estava com radinho (de pilha!). Entrou aquela música que me preencheu. ‘O sol há de brilhar mais uma vez/A luz há de chegar aos corações/Do mal será queimada a semente/E o amor será eterno novamente.’ Juízo final! Já saí de outro hospital, mas era tudo o que queria ouvir, e agora como parte de uma encenação dramatúrgica. Obrigado, Luís Artur.