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Nadando com tubarões

Luiz Carlos Merten

05 Setembro 2015 | 01h17

Na edição de agosto da revista inglesa Sight and Sound, capa dedicada a Divertida Mente – da Pixar -, há um artigo muito interessante de Hannah McGill, Swimming with Sharks, Nadando com Tubarões. Hannah analisa o uso de maiôs e biquínis na produção de Hollywood. Parte da análise é dedicada aos filmes da série James Bond. Em 1962, no primeiro 007, O Satânico Dr. No, Úrsula Andress virou instantaneamente mito sexual e um ícone daqueles anos de mudanças comportamentais ao sair do mar do Caribe usando aquele biquíni, e com aquela adaga na cintura. Passaram-se 40 anos e Halle Berry repetiu Úrsula com outro exíguo biquíni em 007 – O Amanhã Nunca Morre. Belas mulheres sempre fizeram parte da receita da franquia, mas algo se passou em 2006, quando Daniel Craig assumiu o personagem e fez sua primeira entrada de arromba em Cassino Royale. Põe arromba! O cara saía do mar com uma sunga tão reduzida que… Deixa pra lá. Essa passagem do corpo feminino para o masculino diz alguma coisa sobre novas mudanças de padrões e comportamentos. Mas nada se compara ao maiô branco de uma peça que Elizabeth Taylor usava em De Repente, no Último Verão. Tinha 15 anos quando o filme estreou nos cinemas. A impropriedade era até 18. Só consegui vê-lo mais tarde, mas me excitava a chamada no cartaz – ‘De repente, no último verão, Catherine descobriu que estava sendo usada para algo perverso.’ A frase era ilustrada pela imagem de Liz, sentada de joelhos, com o maiô branco, na areia da praia. Em 1959, quando Joseph L. Mankiewicz adaptou as peça de Tennessee Williams – o filme estreou no Brasil em 1960, ou 61 -, Liz Taylor já havia sido o pivô da separação de Eddie Fisher e Debbie Reynolds. Tornara-se a preferida das imprensa de escândalo da época e ia vender muito mais jornais e revistas pouco anos depois, durante a tumultuada rodagem de Cleópatra em Roma, quando se envolveu com seu colega de elenco Richard Burton, iniciando o romance que todo o mundo sabe. Mankiewicz comeu o pão que o diabo amassou e teve tantos problemas que passou a odiar o próprio filme. Não ousava dizer seu nome. Referia-se a Cleópatra como ‘aquele filme’. Cleópatra era e continua sendo belíssimo, mas não é o caso de voltar ao assunto. O foco é o maiô branco de Catherine. Como ela conta, ‘ele (seu primo, Sebastian Venable) me comprou um maiô que eu não queria usar.’ E por que não? Porque Sebastian, gay assumido e predador, forçava a prima a se expor na praia para que ele pudesse dispor dos homens que ela atraía. Catherine sabia que para Sebastian era só uma coisa, um pedaço tentador de carne. O que ocorre com Sebastian, e com ela – o que a mãe de Sebastian quer fazer com a sobrinha para manter o segredo do filho -, faz do filme uma tragédia e, como sempre em Mankiewicz,  toda tragédia passa pela palavra.  Usar a imagem (semi)desnuda de Liz numa época de intenso puritanismo deu certo duplamente. Como Catherine, Liz serviu de chamariz para que Suddenly, Last Summer, o título original, se tornasse o sucesso de público e filme cultuado que segue sendo. Pouco importa que, no filme, a nudez seja criticada como um ato de perversidade e prepotência. Catherine não se sente confortável naquele maiô. O primo era um monstro, mas sua poderosa mãe, Mrs. Venable (Katharine Hepburn), consegue ser pior ainda. Não por acaso, depois da morte de Sebastian ela cuida do jardim dele, e as plantas são carnívoras, como era o próprio filho. E Mrs. Venable não hesita em exigir do neurocirurgião Montgomery Clift que realize uma lobotomia na sobrinha. Antes do maiô branco de Liz Taylor, Esther Williams dançou muito de maiô  (nos musicais de Busby Berkeley) na piscina da Metro. Mulheres despiam-se nos erotizados relatos bíblicos de Cecil B. de Mille e Hedy Lamarr, que foi a Dalila do diretor, realmente apareceu nua num filme que havia feito na Europa. Mas quem fez história foi Liz. Seu maiô branco ficava transparente quando molhado. Ela personificava o desejo, virava uma coisa, o objeto de desejo dos homens. Desejo = morte. Metaforicamente, Catherine nadava com tubarões. Os anos 1960 iriam mudar tudo. Em 1959, um maiô branco já sinalizava para a revolução dos costumes, como nos lembra Hannah McGill em Sight and Sound.