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Nada

Luiz Carlos Merten

31 de julho de 2012 | 09h48

Meu amigo Dib Carneiro compartilha o Facebook de Pedro Butcher – é assim  que se diz? Compartilhar? Dib gostou mais de ‘Fausto’ do que eu, mas o assunto não é este. Outro dia Dib me disse que Pedro anotou no Facebook que teve a experiência mais aterrorizante de sua vida assistindo ao filme de Alexander Sokurov. Desde então, o assunto anda difuso na minha mente e eu até o retomei depois de rever o filme, em condições, digamos, corretas. Eu também tive uma experiência recente, e aterrorizante, e não foi com o ‘Fausto’. Foi na peça ‘Bom Retiro’, do grupo Vertigem. Nosso passeio pelo bairro termina num teatro em ruínas, tombado (no duplo sentido, tanto pelo Patrimônio quanto pelas condições de abandono em que se encontra). Antes que a gente – nós, o público – entremos no teatro, o diretor Antônio Araújo nos senta na escadaria e inverte as posições. As pessoas que passam na rua (e são seus atores) nos olham como se fôssemos parte do espetáculo (e somos), mas privados da palavra. Gosto daquilo, é talvez o que acho mais interessante na montagem. Mas aí a gente entra no teatro, senta e, por um tempo incrivelmernte longo, as luzes se apagam e mergulhamos no breu total. Foi ali que vivi minha experiência angustiante. Não sou claustrofóbico. Não tenho medo do escuro, mas as circunstâncias são muito interessantes. A montagem já foi criticada, muitas vezes, pela fraca dramaturgia do texto. Se não há um texto nem um teatro – o abandono pressupõe a dessacralização -, eu, pelo menos, me senti no que deve ser o limbo. Pior – o nada. Juro que ali, naqueles segundos (ou minutos) que me pareceram uma eternidade, pensei em Yasujiro Ozu, que fez gravar na sua lápide o ideograma de ‘Nada’. Quando o espetáculo recomeça, nós no palco, a costureira etc, é mais do mesmo. Não gostei de Bom Retiro, a peça, mas admito que aquele momento, como o visual do ‘Fausto’, foi perturbador. Imagino que não se trate de um acidente de percurso na peça. Toda a mise-en-scène converge para aquilo, ou não? As pessoas que amam o espetáculo não falam disso. Por que será?

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