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Nacionais

Luiz Carlos Merten

31 de dezembro de 2019 | 09h50

Pedi a Carlos que viessse hoje mais cedo, para eu cumprir meu ritual de todos os anos, desde que, no final de 1988, cheguei a esta cidade. Gosto de ver a São Silvestre, e no Centro. Posicionava-me na Praça da República, para ver a chegada dos corredores pela Consolação e, depois, me deslocava para o Largo Paissandu, quando vinham da Rio Branco e faziam a curva para subir a Conselheiro Crispianiano e, dali, pegar o Viaduto do Chá. Estou colocando no passado. Tudo foi mudando. O trajeto, o horário. A corrida, que era noturna, passou a diurna. Para manter as atrações de sua grade, a Globo foi mudando a bel prazer. Fui tomar café mais cedo, 7h30, e na TV da Trigonella as mulherees já estavam correndo, daqui a pouco, se já não começaram, os homens. Quando chegar ao Centro, só a turma risonha estará passando – os Lulas vestidos de presidiários, como me disse ontem um taxista bolso-qualquer-coisa. O desrespeito pelas tradições, mas quem se importa? Tudo está à venda. Volto aos meus melhores do ano. Vou enumerar alguns filmes nacionais. Bacurau, A Rosa Azul de Novalis, Democracia em Vertigem, A Torre das Donzelas, Elegia de Um Crime, No Coração do Mundo, Divino Amor, A Vida Invisível. E mais – Temporada? Não, estreia em janeiro. Desses, só os cinco primeiros irão para minha grande lista, a definitiva, de dez mais do ano. Brasileiros e internacionais, juntos e misturados, senão não tem graça. Com Bacurau, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles integraram-ase a uma tendência que foi forte, mundialmente, em 2019. A revolta dos excluídos. O filme mais provocativo do ano? É brasileiro. Cacá Diegues, pegando carona em João Ubaldo Ribeiro, já disse que Deus é brasileiro e, se Ele, com todo respeito, está em toda parte, por que não estaria no ânus pulsante que é a abertura de Marcelo Diório, o ator/personagem do filme, gay e soroposaitivo, para o sagrado no longa de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro? Em geral, não gosto muito do cinema de Petra Costa, ou não gostei de Elena, seu documentário sobre a irmã que morreu. Mas fiquei impressionadíssimo com Democracia em Vertigem e suas conversas com a mãe, no longa. O processo de impeachment, visto de dentro, numa perspectivas de classe. No Brasil, só os irmãos Salles, bilionários, poderiam ter feito esse filme. Não fizeram, quem fez foi Petra, e na primeira pessoa, autoficcionalizando, ou documentando. sua decepção pelo Brasil. Está no pré-Oscar (de documentário). Espero muito que vá adiante. Filmando a ex-presidente e suas companheiras de cadeia, na época do regime militar, Susana Lira fez de A Torre das Donzelas um registro de feminismo e da militância como raras vezes o cinema brasileiro ofereceu. Iluminou a intransigência de Dilma em negociar, em ceder, mesmo quando o que estava em jogo era o maior cargo da república. A grandeza dos derrotados, da derrotada. John Ford, sempre. Cristiano Burlan reflete. Depois de Mataram Meu Irmão, a morte, o assassinato da mãe. Seu irmão, seu pai teriam se vingado. Ele só consegue filmar, em busca de uma imagem da mãe, do seu sorriso para sempre perdido, mas reencontrado. O tempo, experiência seminal, visceral. Cada vez me convenço mais que os grandes artistas que marcaram minha vida e fizeram de mim o homem, a pessoa que sou, foram Ford, Visconti e Proust, talvez o Antonioni da trilogia. Lamento muito que o Affonso Uchoa da vez, Sete Anos em Maio, não tenha estreado para entrar na minha lista. Mesmo assim, Contagem não fica fora do mapa do cinema brasileiro – entra por meio dos Martins, Gabriel e Maurílio, em que Grace Passô, nossa Viola Davis – não será Viola a Grace deles? – está gloriosa. E chegamos a Divino Amor, o futuro distópico e evangélico de Gabriel Mascaro. Foi um belo ano para o cinema nacional, com A Vida Invisível, ou o feminismo segundo Karim Aïnouz, batendo às portas da Academia, mas sem conseguir arrombá-las. Durante todo o ano, o cinema brasileiro foi aviltado, criminalizado, tratado como inimigo pelo governo. Reagiu, não apenas com manifestações individuais e de classe, mas nas telas. Houve muita coisa boa. Que haja mais em 2020.