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Na tela grande, Vermelha seguiu pequeno

Luiz Carlos Merten

29 de março de 2019 | 09h35

Fui ontem à abertura da Mostra de Tiradentes. Perdi a performance, Corpos Adiante, mas vi o filmne que venceu a Aurora. Havia visto Vermelha no computador, pelo link. No ano passado, durante um debate na Aurora, devo ter parecido arrogante ao dizer que detestava ver filmes pelo link, e ou os distribuidores e exibidores me faziam cabines – exclusivas, que fossem, ou sejam – ou espero para ver nos cinemas e só dou as matérias depois. Lamento muito que ‘críticos’ se adaptem a esse sistema que me parece perverso. Ver o filme no laptop, no celular, no computador me permite seguir a trama – a história?? -, mas a fruição? Pelo visto, tanto faz. Um carinha do meu lado, ontem à noite, no Cinesesc, se desligou do Vermelha e foi conferir seus e-mails. Eu não entendo essa geração que só pode ter déficit de atenção e tem de fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo porque não consegue manter o foco. Dito isso, Vermelha ficou mais bonito na tela grande, mas não melhor. O diretor goiano Getúlio Ribeiro subverte expectativas, monta um relato fragmentado, com uma cronologia intrincada. Há quase 60 anos, quando vi pela primeira vez O Ano Passado em Marienbad, o filme de Alain Resnais (e Alain Robbe-Grillet) parecia um quebra-cabeças, mas era encantatório e, ao reordenar as imagens no inconsciente, elas faziam sentido e até contavam, de forma embaralhada, o que era linearmente uma história de amor, com começo, meio e fim – era a suprema ironia do autor, dos autores. Vermelha me pareceu um filme da e para a Aurora, ou o que se espera da Aurora, como produção autoral e independente. Orlando Margarido, que estava na sessão, chamou o diretor de Apichatpong Weerasethakul de Goiás. Antes fosse. Vermelha tem algo de O Som ao Redor. A raiz da árvore, o conserto do telhado, a salvação do cachorro, a cobrança da dívida, as brigas. Os corpos estão ali, ocupando seu lugar no espaço. O filme possui fragmentos de bom cinema, diálogos nonsense. No limite, não me acrescentou muito. O grau de elaboração é muito maior em A Rosa Azul de Novalis, mas mexer com c… mete medo em muita gente. Só assim para justificar o título de melhor para Vermelha.