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Na estrada, de novo, com Paolo Virzi

Luiz Carlos Merten

19 Janeiro 2018 | 10h01

Quando entrevistei Paolo Virzi, pelo telefone, por Loucas de Alegria, ele me contou que estava nos EUA, fazendo outro road movie. Talvez tenha me dito o título, mas teria de procurar na matéria do Estado. De qualquer maneira, não fiz a ligação com Ella e John, que vi ontem à noite no Itaú Augusta, no ciclo em comemoração dos 25 anos do Espaço. A programação deve prosseguir até quarta, 24, mostrando, em pré-estreias abertas para o público, filmes ‘oscarizáveis’. Como os ingressos estão sendo vendidos antecipadamente, na internet, A Forma da Água (no sábado) já está esgotado. Não duvido de que também esgotem Timeless (que teve só uma concorrida sessão na Mostra, e passa domingo), o Spielberg (The Post – A Guerra Secreta, na terça) e Três Anúncios para Um Crime (quarta). Gostei muito do Virzi, e cada vez me inclino mais a achar que ele talvez seja o grande (único?) autor italiano contemporâneo, até porque o outro Paolo, Sorrentino, de quem eu gostava tanto – as Consequências do Amor, O Amigo da Família e O Divo -, agora virou diretor de exportação, fazendo filmes para gringo ver. É verdade que perdi sua minissérie O Papa, mas o que tenho visto, Beleza Roubada e Juventude, não me convencem. Ella e John – o título original é The Leisure Seeker – acompanha um casal de velhos que cai na estrada. Ele tem a doença de Alzheimer, ela, um câncer que se espalhou pelo corpo. Fazem sua última viagem, para desespero do casal de filhos, que tentam descobrir onde se meteram os pais. O filme passa-se no quadro da campanha eleitoral de Donald Trump, e por toda parte ouvem-se a movimentação e os alto-falantes que anunciam a volta da grandeza da América. Eis um filme político sem ser, realmente. Essa morte anunciada (dos velhos) talvez esconda uma outra coisa, e os vários incidentes da narrativa vão contando uma outra história. John foi professor de literatura – o mais inspirador, segundo uma ex-aluna que o encontra on the road – e atravessa o filme recitando a poesia em prosa de Ernest Hemingway. Santiago, o estoico pescador de O Velho e o Mar, em seu embate com o peixe – a morte. Perguntei ao Orlando Margarido, com quem voltei a tomar um vinho, no fim da sessão, se Donald Sutherland e Helen Mirren foram indicados para o Globo de Ouro, e e ele não soube me informar. Me deu preguiça de procurar. Os dois formam uma bela dupla, como Brian Cox e Miranda Richardson são impecáveis em Churchill, e o mesmo não posso dizer de Gary Oldman e Kristin Scott-Thomas em O Destino de Uma Nação, mas parece que as associações não ligam mais para isso. E penso que são todos velhos, como a personagem de Magali Biff em Pela Janela, o belo filme de Caroline Leone. Velhos, mas lutadores, com garra. Havia menos público na pré-estreia de ontem, de Ella e John, meia sala, talvez. Por que os jovens deveriam querer ver filmes de idosos? Alguns dos maiores filmes são obras sobre a terceira idade – Morangos Silvestres, Morangos Silvestres, Morangos Silvestres; Umberto D. O filme de Paolo Virzi é mais que sobre um casal de velhos morrendo. Mas ele passa esse sentimento de desencanto por um mundo que vai se degradando. A América de Trump – Virzi foi profético -, e não apenas.